quarta-feira, 30 de agosto de 2017

"Boring" - 57


Sofia sabe a história do nascimento dos bebés do jeito dela e tem a sua opinião sobre o assunto.

Estando de conversa com a mãe e as avós acerca do seu nascimento, ela acha muito bonito e muito interessante o papel da mãe, que recebe do pai uma sementinha e dentro de si a faz crescer, desenvolvendo-se durante um período de nove meses, para finalmente sair prontinha, deliciando-se com a ideia de ter passado por essa experiência, pelo que até acarinha a mãe num gesto delicioso de gratidão e amor.

Porém, quando se fala no papel do pai, que pôs a sementinha na mãe, ela faz saber o seguinte:

- Oh, não, o pai só pôs a sementinha e isso é muito “boring”!... (?)


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Os mortos - 56


Sofia seguia no seu próprio assento no banco detrás do meu carro enquanto eu a levava a casa, depois de ter passado com ela algum tempo num parque infantil.

A conversa foi parar aos mortos, nomeadamente o avô Armando e outros familiares que já faleceram. Arrematando a conversa, resolvi dizer que estavam todos no céu. Sofia começou a ficar muito agitada, contrariando-me e dizendo “o céu… isso não existe”!

Pensei que tinha ouvido mal, mas ela continuou barafustando e eu, apontando para cima, perguntei-lhe se aquilo azul era ou não o céu. Ela respondeu que sim, mas que os mortos não iam para ali, iam para o cemitério.

Bom, depois de uma argolada destas, por momentos fiquei sem palavras. Foi o suficiente para ela ganhar terreno e continuar as suas sentenças:

- Isso não existe, se queres acreditar nisso, acredita, “dahaaaaa”… (!)


Beijooooooo - 55


A avó Filu tinha acabado de receber uma mensagem de um amigo, onde se podia ler “beijooooooo”, apenas isso e comentou com a Tânia (filha), o que tinha acabado de receber.

Sofia, que fez recentemente seis anos, correu para a avó a fim de inspecionar a dita mensagem no telemóvel e tendo visto o que a avó acabara de mencionar, logo tratou de fazer os seus reparos. Que uma mensagem não deve ser assim, deve dizer mais coisas e ter mais palavras.

A avó Filu achou por bem o reparo da sua neta querida e aproveitou para dizer que ela tinha razão e, portanto, nem se ia dar ao trabalho de responder.

Por sua vez, a Tânia, interveio para dizer que não, que a mãe deveria no mínimo agradecer. Então a avó Filu decidiu que responderia apenas com um “obrigado”. Sofia não se fez esperar e mais uma vez aconselhou a avó como responder devidamente à mensagem do beijooooooo:

- Então responde “obrigadooooooo”.


terça-feira, 25 de julho de 2017

A chegada do Pai Natal - 54


Sofia tinha ido para a cama a muito custo. Não queria dormir. Mas já passava da hora dela. Chamou a mãe vezes sem conta. Falava sozinha, fazia barulho e os pais já estavam cansados por ela não sossegar. Naquela noite lembrou-se que queria a luz da casa de banho acesa. Depois, já era a luz da cozinha. O facto é que não sossegava de jeito nenhum. De repente lembrei-me de lhe dizer umas palavras mágicas que resultaram na perfeição. Foi tiro e queda. Disse-lhe que faltava pouco para o Natal e como NY era uma cidade muito grande, o pai Natal já devia andar por aí...


Ela levantou a cabeça para ouvir melhor o que lhe estava a dizer, pois se era sobre o Natal, a conversa era importante, por isso, logo perguntou com uma interjeição "hum"? Continuei, dizendo-lhe que se o Pai Natal já andava por aí, era melhor apagar as luzes, assim, mesmo que ela não estivesse a dormir, ele pensaria que sim.

 

E de repente fui bruscamente interrompida por uma vozinha aflita, dizendo energicamente: "Ai, apaga, apaga!"

 

Apaguei as luzes e em cinco minutos a Sofia dormia que nem um anjo.

 

No outro dia quando a mãe perguntou o que se tinha passado que, de repente, sem mais nem menos, tinham deixado de a ouvir, a Sofia olhou para a mãe e respondeu: eu dumi. O pai Natal passou aqui na janela! 


Dani - 53


Eu estava de olho na criançada, enquanto estávamos todos na gelataria, desfrutando de sabores os mais variados, numa noite de calor.

 

Dani estava sentado no parapeito de pedra exterior da montra de uma loja, dando cabeçadas no vidro, pelo que a certa altura a senhora veio cá fora e disse-lhe qualquer coisa que não entendi, achando por bem intervir. 

 

Aproximei-me dele e disse-lhe que não podia dar cabeçadas no vidro porque podia parti-lo e ainda ficar magoado. Dani olhou para mim com o narizinho malandro empinado e com a sua carinha de desenho animado, olhos grandes e pestanudos, respondeu:

 

- "Já di e magoei-me".


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O Emílio - 52


O Emílio é um fofo e tem uma superpaciência com a Sofia que, contrariamente ao Emílio, está sempre muito agitada e grita com ele e nunca quer perder e se chateia muito, apesar de gostar muito do amiguinho.

 

Os dois estavam brincando em casa da Sofia que, como sempre, queria mandar em tudo e ditar as regras do jogo a seu belo prazer, falando ao mesmo tempo Inglês e Português. Inglês, porque residem nos Estados Unidos e Português porque, enquanto a Sofia é filha de portugueses, o Emílio é filho de mãe americana e pai brasileiro. E nesse dia a Sofia estava particularmente chata, tanto que, apesar de toda a sua paciência, o Emílio que é muito tranquilo, já estava a ficar tão cansado do desatino da amiguinha, que foi obrigado a ir ter com os pais dela, dizendo: "Ai, já tô ficando in-có-mó-da-do!..."

 


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O avô Armando - 51


Com quatro anos, a Sofia ainda não tem a noção da morte. E porque o avô paterno faleceu antes ainda de ela nascer, a mãe, saudosa do pai, de vez em quando, fala-lhe do avô Armando que está no céu.

 

Achando tão estranho ouvir falar em alguém que não pode vir e sem perceber que razão tão forte é essa, a Sofia já perguntou à mãe: 

 

- "Mas ele não vem porquê, não tem a chave?"

 

sábado, 1 de agosto de 2015

Os sonhos do Vasco - 50


O Vasco, que vive na Suíça, está de volta a Portugal com os pais e o irmãozinho, para passarem férias com a avó. Na casa de férias, o Vasco dorme no mesmo quarto com a avó Zá. 

 

Uma noite, à hora de se ir deitar, a avó deu-lhe as boas-noites e disse-lhe que tivesse "sonhos cor-de-rosa". 

 

Ao que parece, o Vasco não gostou muito dos sonhos cor-de-rosa, porque disse à avó: "não avó, não... sonhos cor-de-rosa, não". 

 

Apercebendo-se do lapso que eventualmente teria cometido, a avó então perguntou-lhe se podiam ser azuis, por exemplo. 

 

O Vasco, então, mais tranquilo, respondeu: "azuis, pode ser, sim, azuis".

 

domingo, 19 de julho de 2015

Histórias de Sofia - 49


Era uma vez um grande leão. E depois um menino pensava que o leão o estava a comer. E depois o leão estava muito forte. E depois o menino pensou que o leão tinha luz na sua barriga e nos pés. E depois o menino foi a correr para o leão não o comer. E depois o menino encontrou uma menina. E depois o leão estava a comer os dois. O senhor que tinha uma faca cortou o leão e a menina e o menino disseram “yeh... nós estamos salvos!”. 

FIM

 

Um dia um menino deixou cair um brinquedo. E depois ele não sabia onde é que estava. E depois ele encontrou um amigo novo. E depois ele disse: “vamos brincar no mar”. E depois ele disse: “eu quero brincar na areia contigo”. E depois ele disse que queria brincar às escondidas na areia. E depois ele não sabia onde é que estava o papá e a mamã dele. E depois ele viu que estava noite. Esta história é um bocadinho triste.

FIM




terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Vasco - 48


O vasco é um garotinho de quatro anos, muito fofo, filho de mãe portuguesa e pai suíço, que por isso vive na Suíça. Vem com frequência a Portugal e fala muitas vezes com a avó materna que vive em Lisboa.

 

No dia 10 de Junho a mãe disse-lhe que era o dia de Portugal e que iam falar à avó. O Vasco não se fez esperar, correu para o skype, ligou para a avó e assim que a viu, logo tratou de a informar:

 

- Avó Zá, Portugal faz anos hoje!




terça-feira, 18 de novembro de 2014

A carta do Pai Natal - 47


Sofia é uma pequenina muito "safada" e muito esperta.

 

Aproximando-se a época natalícia, os pais disseram-lhe que estava na altura de escrever uma carta ao Pai Natal para pedir os presentes que gostaria de ter, mediante o seu bom ou mau comportamento.

 

Ao contrário do que se esperava, a Sofia não se mostrou muito interessada. Os pais diziam-lhe "vamos escrever", mas ela não estava mesmo interessada. Perguntaram-lhe porque é que ela não queria escrever a carta e ela respondeu simplesmente: "amanhã". Os pais insistiam e ela continuava aparentemente indiferente, respondendo sempre o mesmo "amanhã". 


Intrigados, os pais perguntaram: "porque não hoje"? Então ela, na sua pureza de criança, respondeu com toda a verdade possível:

 

- "Amanhã, poque hoje, ainda vou potar um bocadinho mal" (!)

 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Palavras - 46


A Sofia ia sentada na sua cadeirinha no banco de trás do carro, como de costume. E eu ouvia-a a falar, falar, sem perceber nada do que ela dizia, enquanto ía entretida a ver a vista pela janela do carro.

 

A páginas tantas perguntei-lhe o que é que ela estava a falar, que não estava a perceber. A Sofia, pequenina, respondeu:

 

- "Tô a falá palavas"... (?)

 

Os papeles - 45


Eu tinha feito uma colecção com as embalagens dos pacotinhos do café, que tinham uns desenhos muito amorosos, com situações muito diversificadas, mas cujo tema é sempre o "amor", relacionado com o café. E como eram bastantes, arranjei até uma bolsinha, mesmo à medida, para os guardar e dar à Sofia, porque achei que ela ia achar graça aos desenhos.

 

Assim que o carro começou a andar, tirei a bolsa do meu saco de mão e dei-lhe. Ela espreitou, tirou as embalagens todas que caíam e eu apanhava e ficou toda contente com aquilo. Quando chegámos, dado que íamos levá-la a brincar ao parque, a mãe convenceu-a a entregar-lhe a bolsinha, que guardou no saco dela, dizendo-lhe que depois lha daria novamente. Ela aceitou.

 

No regresso, entrando no carro e instalada na sua cadeirinha, logo se lembrou das embalagens do café, gritando: os "papeles"! E enquanto a mãe lhe dizia para esperar um pouco ela continuava a gritar "os papeles!"... "os papeles!"...


sábado, 2 de agosto de 2014

Perguntas difíceis - 44


A Tânia estava a deitar a Sofia que já estava com soninho. Foram à casa de banho para fazer o último xixi antes de pôr a fralda que só já usa para a noite.

 

E no calor da noite das férias do Algarve, com a Sofia excitadíssima por estar todos os dias na companhia dos primos e com todos os tios e toda a família por perto, em que cada dia traz coisas novas e surpresas e muita praia e piscina, muita canseira boa... a Sofia na sua ingenuidade de criança ainda tão perto de ser bebé, com a curiosidade pueril e a vozinha diabolicamente angélica, pergunta:

 

- Mãe, como é que se ama? (?!)...

 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os "pimos" - 43


As crianças são uma delícia!...

 

A Sofia fez três anos há poucos dias. Estávamos de férias no Algarve e todos os dias ela estava com os primos na praia.

 

Muita brincadeira, muita excitação, muito gelado, muito tudo... ela adora os primos.

 

Um dia, para que eu ficasse a saber, ela virou-se para mim e com um ar compenetradíssimo, disse-me "os pimos são meus pimos".

 

Ok.



segunda-feira, 21 de abril de 2014

Outa? - 42


A Sofia foi com a sua mamã para Amesterdão, ter com o pai, para passarem juntos umas mini-férias de Páscoa.

 

Acontece que ela já anda a aprender inglês, porque em setembro vai para os Estados Unidos, onde ficará dois anos e para não ser um choque muito grande com a língua, já se está a providenciar o ensino do inglês, ainda que de forma ligeira. Mas por isso, ela já sabe que não se fala só o Português, ou seja, há outras maneiras de falar. Pelo menos outra maneira de falar e essa outra maneira de falar é o inglês, que ela diz "igalês".

 

Então a mãe explicou-lhe que iam de avião para uma terra diferente, Amesterdão e que lá não se falava Português. Falava-se Inglês e Holandês.

 

A Sofia, docemente perplexa, olhou para a mãe e perguntou: "outa"?!...

 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Terrorista - 41


A Sara é uma menina da comunidade Guineense, que faz parte do grupo de crianças a quem dou apoio escolar no Prior Velho, juntamente com outros voluntários.

 

Ela é uma menina simpática, meiga, bem esperta e muito bonita, com as trancinhas sempre muito bem feitas e sempre muito bem vestida.

 

Esta semana fui dar-lhe apoio nos trabalhos. Sentei-me junto dela e perguntei quais eram as dúvidas, ao que ela logo me respondeu que não sabia fazer "aquilo". Aquilo era formar quatro frases com palavras a partir da palavra "terra". Então vamos lá, disse-lhe eu. É muito fácil. Primeira palavra formada a partir de "terra". Ela olhou para mim e com um tom cheio de convicção, respondeu: 


- Terrorista (?)



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Quando eu for grande... - 40


A Sofia adora estar com os primos para todo o tipo de situações. No fim de semana passado, mais uma vez, passou com eles algumas horas e depois os pais tiveram que levar o Daniel, que fez recentemente um ano, para casa da avó, o qual foi transportado no respectivo ovo.

 

No carro, ao lado do primo, começou logo por fazer cena porque não queria a mãe ao pé. Queria ser ela a tomar conta dele a cem por cento. Depois, quando chegaram a casa da avó, o pai pegou no ovo com o Daniel lá dentro e a Sofia continuou a guerra dela porque queria ser ela a levar. Depois de ter percebido que não podia ser, consentiu que o pai pegasse e ela desse uma ajuda, o que muito dificultou as coisas.

 

Finalmente, quando chegou a casa da avó e percebeu que o primo ia lá ficar, a guerra explodiu de vez. Ela queria levar o Daniel para casa dela e ser ela a tomar conta dele. Gritou, esperneou, chorou, chorou muito, muito, muito e quando, enfim, percebeu que era inútil porque, com dois anos, não poderia de maneira nenhuma tomar conta do primo, entre soluços, disse à mãe:

 

- Quando eu for grande quero ser mamã de bebés.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

As cuecas da Sara - 39


Pequenininha, a Sara, teria uns dois anos, quando um dia fui com ela a uma loja ao lado do prédio onde moravam, porque ela queria qualquer coisa e a mãe estava ocupada, pelo que me pediu para a levar.

 

Enquanto eu tratava do assunto vi chegar ao pé dela um garotinho, sensivelmente da mesma idade. Ficou frente a frente com ela, encheu o peito de ar e apontava para o desenho da sua T-shirt, que ele não se cansava de exibir, tentando fazer inveja à Sara. Punha as mãozinhas com os dedos apontados aos vários pontos mais interessantes da t-shirt, ao mesmo tempo que bamboleava o corpo, numa ligeira dança para a direita e para a esquerda.

 

A Sara pequenita, com uma boneca debaixo do braço, olhava para o garoto aparentemente indiferente. Não liguei e continuei à procura do que tinha ido comprar. Até que, de repente, ouço a avó do garoto ralhar com ele, dizendo-lhe para estar quieto. Olhando, vejo então o garoto que continuava exibindo, cheio de vaidade, a sua t-shirt e a Sara, que tinha acabado de vestir umas cuequinhas novas com uns bonecos muito fofos, com o vestido levantado até às orelhas, barriga empinada para fora, rodando o corpo de um lado para o outro e apontando para os bonecos sobre o seu pipi. 

 

Pronto, não resistiu, e afinal não estava em desvantagem. Também tinha algo novo e bem giro, por sinal. Mas acima de tudo, muito adequado para mostrar.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Jacaré/crocodilo - 38


Quekuto é uma das crianças da comunidade Guineense, a quem a organização "Coração Sem Fronteiras" dá apoio escolar, na freguesia do Prior Velho.

 

Quekuto é um turbilhão de emoções, todas ao mesmo tempo. No ano passado eu não consegui trabalhar com ele, nem um pouco. Não nos entendemos de jeito nenhum. Ele entrava e saía, saía e entrava e voltava a entrar para imediatamente sair. Ignorava tudo e todos, sempre a refilar, só fazendo o que ele muito bem queria, com aquele ar reguila que todos lhe conhecem. E no ano passado, a solicitação das crianças era tão grande e as nossas dificuldades tantas que eu deixei-o ir na onda dele, sem fazer grandes esforços, porque também não era possível fazer mais, e milagres muito menos. Pensava eu.

 

Este ano, o Quekuto continua a ser o mesmo reguila, irrequieto, um desassossego completo, mas... há nele, nas mesmas proporções, um lado doce, carinhoso, sedento por ser mais e melhor, que no ano passado não me foi revelado. Este ano, Quekuto e eu fizemos as pazes e o milagre deu-se! E tem dias que a cada cinco minutos me pergunta exaustivamente "tou a portar bem?" E eu respondo "sim" e volta à carga "tou a portar bem?" Sim e ele continua, interrompendo a lição, as explicações, tudo, interrompendo a minha direcção, a minha linha de planeamento dos trabalhos, tudo, para esgotar a minha paciência com aquela lenga-lenga a que junta intencionalmente um toque de humildade, com o propósito de que eu não me arrependa de dizer "sim" porque, mais tarde, ambos sabemos que será cobrado. Uma vez Quekuto, sempre Quekuto.

 

Todavia, Quekuto já consegue estar onde os outros estão e ser como os outros são, nunca deixando de ser ele mesmo, pelo que com ele a atenção é redobrada, triplicada, enfim... é preciso chegar lá, porque eu sei que ele quer, quer muito ser bom na escola como é na bola. E ele pode, porque outros poderão não ser, mas ele é esperto, inteligente e apanha tudo com imensa facilidade. Já me chateei muito com ele este ano, já foi recado para casa e castigos no apoio. Mas, decididamente, este ano a coisa vai.

 

Há dias, estávamos na leitura e a páginas tantas aparece a palavra "jacaré", que ele leu sem grande dificuldade. Mas como eu sei que muito do vocabulário que eles lêem, desconhecem o significado e para não deixar as crianças na ignorância, prefiro perguntar se sabem o que é. Foi o que fiz. Perguntei-lhe se sabia o que era um jacaré. Ele olhou para mim, abanando a cabeça várias vezes em sinal afirmativo, com aqueles seus olhos grandes, que dizem e exprimem o tumulto que lhe vai na alma de criança. E para ter a certeza de que ele realmente sabia e não só - é necessário que saibam exprimir-se de modo mais fluente -, pedi-lhe que dissesse o que era um jacaré. Ele voltou a olhar para mim com um olhar mais tranquilo, o que significava que sabia o que era. Mas eu estava curiosa, porque para mim um jacaré e um crocodilo são a mesma coisa. Não são, mas confesso a minha ignorância. Por isso queria ver como é que ele se saía com aquela resposta. 


E sem se atrapalhar, olhando nos meus olhos, primeiro vieram todos os tiques nervosos, abrir e fechar de olhos automático, depois começou a surgir o som aos solavancos, a mastigação nervosa e finalmente, por entre a gaguês:

 

- U u  um jacaré é ummm crocodilo.