sábado, 7 de outubro de 2023

Pipocas - 69

 

Mehemet tem agora cinco aninhos. Já anda na pré-escola e também já se faz entender bastante bem em Português.

Cheguei perto dele, que estava a comer pipocas, uma atrás da outra e perguntei se podia tirar uma. Fez que sim com a cabeça, esticando-me o pacote. Depois perguntei se podia tirar duas. Disse que sim, sem dúvidas, e muito solto. Depois perguntei se podia tirar três. Continuou dizendo que sim, não só de viva voz, mas também pela expressão e especialmente com o olhar, afirmativo e convicto.

Mehemet é uma criança adorável. Parece um boneco. Muito genuíno e de uma espontaneidade impressionante. Um vendaval de emoções, porque quando é meiguinho, é de partir o coração, mas quando é o contrário, é um perfeito diabinho. Contudo, o seu doce coração sempre leva a melhor.

Depois de me ter autorizado a tirar as três pipocas, não resisti a fazer uma brincadeira para ver a sua reação. Por isso perguntei uma vez mais, elevando propositadamente a fasquia, se podia tirar dez.

Mehemet deu um passo atrás e olhando para mim, com uma expressão de total espanto estampado por todo o seu visual e perfeitamente espelhado no seu olhar, a contrapor a sua voz doce e suave, de tom baixo e bem tranquilo, demonstrava a sua imensa indignação pelo meu inesperado abuso, abanando a cabeça para dizer sem sombra de dúvidas e numa palavra só, determinado e sem a menor possibilidade de retrocesso, um muito bem pronunciado e prolongado: “Nãaaaao!?”…

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Mehemet - 68

 

Mehemet tem quatro aninhos acabadinhos de fazer e chegou a Portugal há um mês, vindo do Bangladesh, seu país de origem.

Mehemet fala Bangla e Inglês, e, claro, vai aprender Português, porque brevemente vai para a escola portuguesa. Por isso, a minha função é ir ensinando, introduzindo umas palavras aqui e ali, quando ele está disposto a isso. Penso que na cabecinha dele já deve ir uma grande confusão com tantas línguas em tão pouca idade.

Mehemet é um fofo muito fofo. Parece um homem em miniatura, porque tem atitudes de homem, reacções, gestos, etc…, que têm imensa graça por ser pequenino. É muito bem disposto, muito comunicativo e já me adoptou como “grandma”.

Outro dia fui passear com ele e comecei a dizer-lhe algumas palavras em português. Passaram vários aviões e eu dizia-lhe “avião” e ele repetia. Também passaram cães e eu ia-lhe dizendo “cão” e ele repetindo. Depois passámos em frente à escola e eu disse-lhe “escola”. Mehemet mais uma vez repetiu o que eu disse. Mas depois passou um autocarro e eu disse-lhe “autocarro”. E Mehemet olhou para mim com o dedo indicador esticado e disse “bus”(!). Ok, disse eu, ignorando, ao mesmo tempo que repeti “autocarro”. Mas Mehemet definitivamente não queria saber do autocarro e mais uma vez olhou para mim e engrossando a voz subiu o tom e com o dedo bem firme voltou a dizer “bus, buuuuuuus”(!)…

 

O Skype - 67

 

Sofia era pequenina, com menos de um ano. O pai estava em Inglaterra a trabalhar na Microsoft, mais precisamente em Cambridge, onde ela nasceu. Trabalhava dez dias lá e o resto do mês vinha para Portugal, onde continuava a trabalhar em casa. Mas nesses dez dias de cada mês, em que tinha que estar em Inglaterra, as saudades eram muitas, apesar de se falarem com frequência.

Um dia em que eu estava com ela, o pai ligou do skype e pus o telemóvel na sua frente, para ela ver e ouvir o pai, enquanto falava com ela. Olhou e com ar de doutora apressou-se a espreitar atrás do telemóvel, dando-lhe uma volta de cento e oitenta graus. 

Na sua linda cabecinha podia ler-se: "mas que raio, que está ele a fazer ali dentro e não vem cá para fora?!..."


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Jacaré/crocodilo - 66

 

Quequto, um garoto Guineense da ONG “Coração sem Fronteiras, a quem dávamos apoio escolar no Prior Velho.

O texto falava de um jacaré. E como estava sempre a perguntar-lhes o significado disto e daquilo para ver se sabiam, achei por bem perguntar o que era um jacaré, certa de que ele sabia, ainda que para mim um jacaré fosse o mesmo que um crocodilo, mesmo sabendo que  estava errada. Mas, apesar de ter a certeza de que ele sabia o que era, estava curiosa em relação à descrição que faria. Talvez agora eu ficasse a saber o que era realmente um jacaré, em vez de continuar a achar que era o mesmo que crocodilo.

Por isso perguntei. E Quequto logo respondeu, a gaguejar por todos os lados, mas respondeu:

- U u  um jacaré é ummm crocodilo (…!?).



terça-feira, 3 de agosto de 2021

Paciência - 65

 


Alice fala relativamente bem apesar dos pais Guineenses que falam um português um pouco manhoso. 

E a propósito dum incidente sem importância, perguntei-lhe se ela sabia o que era “paciência”(!). 

Alice respondeu que sim com a cabecinha coberta das suas habituais trancinhas africanas que tão bem lhe ficam. 

E para confirmação, insisti para se explicar, ao que logo respondeu: 

- "Paciência" é estar muito chateado. 

Boa!

 

domingo, 27 de junho de 2021

Alice - 64

 

Alice tem cinco anos e é Portuguesa, embora filha de pai e mãe Guineenses.

Entretida com as suas brincadeiras, resolvi interrompê-la para lhe perguntar o que é que ela queria ser quando fosse grande.

Alice parou, olhou de frente para mim e com ar sério e decidido, Alice respondeu muito bem respondido:

- “Quando for grande quero ser mais velha”

Que mania que os adultos têm de fazer perguntas às crianças?!


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Maria - 63


Maria é uma brasileirinha de cinco anos, que vive no Paraná (Brasil), muito fofa e docinha como o mel, que fala frequentemente com a avó que vive em Portugal. Estando em frente ao telemóvel a dançar para a vovó em Portugal ver e se derreter com suas gracinhas, disse-lhe esta: “Maria, como você está grande! Você cresceu!?”

Mas Maria logo respondeu: “Não vó, o telefone é que é piqueno!...” 


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A piscina - 62

 

A Tamy tinha quatro aninhos, estava com os pais e o irmãozinho de férias, em Portugal e estávamos todos em casa do tio João, onde a família se reúne com frequência no Verão, convivendo de modo descontraido ao ar livre, com muitos petiscos para saborear, mas principalmente muita brincadeira dentro e fora da piscina, que todos adoram.

Na hora de ir embora a Tamy ficou muito chateada, demonstrando de maneira muito evidente que por ela ficaria ali para sempre. Por isso, contrariada, de mão dada com a mãe e já de saída, deu a sua sentença:

“Mamãe, eu quero isto todo o dia!


quarta-feira, 18 de março de 2020

O aniversário de Sofia - 61


Era o aniversário de Sofia e estávamos de férias no Algarve, com calor e muita praia. Havia toda uma série de preparativos para o jantar, já que Sofia fazia 6 anos. Então, esta avó decidiu fazer um crumble de maçã que Sofia adora. E enquanto fazia o crumble dizia-lhe que estava a fazer um doce para um menino que fazia anos naquele dia(!). Sofia não se manifestava, mas várias vezes perguntou o que eu estava a fazer e de todas as vezes lhe respondi o mesmo, que estava a fazer um crumble para um menino que fazia anos naquele dia.

À noite vieram os tios e os primos e todos se foram sentando a comer o que lhes apetecia, dado que também trouxeram coisas variadas para o aniversário. A página tantas, quando as crianças já estavam nas sobremesas, percebi que Sofia comia de tudo menos do crumble que eu tinha feito especialmente para ela. E perguntei-lhe se ela não queria, convencida de que estava ansiosa por experimentar. Contudo, com toda a calma e tranquilidade, falando com a máxima convicção, limitou-se a responder “então o crumble não era para um menino que fazia anos? Foi o que tu disseste!?...”

E não comeu o crumble!...

 


terça-feira, 3 de março de 2020

O novo jogo de Sofia - 60



Sofia tem quase nove anos e adora jogos. Todas as vezes que estou com ela tem um jogo novo para mostrar e ensinar à avó. E agora está completamente rendida às delícias do seu último jogo que é de magia. Quando lá cheguei ela tratou logo de me chamar para me revelar as suas habilidades e os seus dotes especiais. E depois de inúmeros truques em que foi muito bem sucedida, tirou umas quantas cartas de um baralho normal, pedindo-me para eu adivinhar o número de cartas que ela tinha nas mãos. Olhando as cartas disse-lhe que não fazia a menor ideia de quantas eram. Mas ela insistiu porque precisava de dar continuidade ao truque. Para não fazer desfeita, disse ao acaso o número vinte e um. 

 

Em resposta ouço um melancólico “simmmmmm” que se prolongou o tempo suficiente para deixar transparecer a sua completa decepção e o maior desânimo, embora me tivesse dado uma enorme vontade de rir.

 

Sem querer, e contra todas as previsões, a “chata” da avó tinha mesmo acertado. Só que isso não fazia parte do jogo.



domingo, 23 de setembro de 2018

Joaninha - 59


Joaninha passa grande parte do tempo com os avós, por conta da vida atarefada dos pais. Por isso acompanha muitas vezes a avó à manicure, aproveitando também para dar uma corzinha às suas delicadas unhas.

Joaninha tem seis anos e quando a tia Amália - a manicure - lhe perguntou o que é que ela gostaria de ser quando fosse grande, ela respondeu "reformada" (!).


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O ginásio - 58


Estava eu em conversa no Skype com a minha neta Sofia que começou a fazer ginástica a sério há pouco tempo, quando decidi dar-lhe a novidade de que também me tinha inscrito num ginásio perto de casa e estava a gostar muito. Então ela perguntou o que é que eu fazia no ginásio. Disse-lhe que tinha andado na passadeira quinze minutos e ela logo se manifestou:

 

- Andar? Mas tu já sabes andar? Andas na rua, para que é que vais para o ginásio “andar”?!

 

Fiquei sem resposta, mas logo me esforcei para lhe explicar que “andar” no ginásio não é a mesma coisa e falei das máquinas e para que servem, etc. E de repente Sofia respondeu:

 

- Ah, já sei, é ginástica para velhos!

 

Na semana seguinte, logo que apareceu no skype começou a fazer cambalhotas muito difíceis para que eu pudesse apreciar as novas habilidades dela nas suas aulas de ginástica. Então perguntei-lhe se continuava a gostar das aulas e ela respondeu que sim. De seguida quis saber se eu continuava a ir ao meu ginásio e respondei-lhe que sim. Perguntou se eu também dava cambalhotas e, rindo, respondi que não. Porquê? Porque a avó não tem idade para cambalhotas, expliquei eu. E fazes "rodas", perguntou novamente. Rodas? Também não. Sofia, respondeu então:

 

- "Grande seeeeeca!"...

 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

"Boring" - 57


Sofia sabe a história do nascimento dos bebés do jeito dela e tem a sua opinião sobre o assunto.

Estando de conversa com a mãe e as avós acerca do seu nascimento, ela acha muito bonito e muito interessante o papel da mãe, que recebe do pai uma sementinha e dentro de si a faz crescer, desenvolvendo-se durante um período de nove meses, para finalmente sair prontinha, deliciando-se com a ideia de ter passado por essa experiência, pelo que até acarinha a mãe num gesto delicioso de gratidão e amor.

Porém, quando se fala no papel do pai, que pôs a sementinha na mãe, ela faz saber o seguinte:

- Oh, não, o pai só pôs a sementinha e isso é muito “boring”!... (?)


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Os mortos - 56


Sofia seguia no seu próprio assento no banco detrás do meu carro enquanto eu a levava a casa, depois de ter passado com ela algum tempo num parque infantil.

A conversa foi parar aos mortos, nomeadamente o avô Armando e outros familiares que já faleceram. Arrematando a conversa, resolvi dizer que estavam todos no céu. Sofia começou a ficar muito agitada, contrariando-me e dizendo “o céu… isso não existe”!

Pensei que tinha ouvido mal, mas ela continuou barafustando e eu, apontando para cima, perguntei-lhe se aquilo azul era ou não o céu. Ela respondeu que sim, mas que os mortos não iam para ali, iam para o cemitério.

Bom, depois de uma argolada destas, por momentos fiquei sem palavras. Foi o suficiente para ela ganhar terreno e continuar as suas sentenças:

- Isso não existe, se queres acreditar nisso, acredita, “dahaaaaa”… (!)


Beijooooooo - 55


A avó Filu tinha acabado de receber uma mensagem de um amigo, onde se podia ler “beijooooooo”, apenas isso e comentou com a Tânia (filha), o que tinha acabado de receber.

Sofia, que fez recentemente seis anos, correu para a avó a fim de inspecionar a dita mensagem no telemóvel e tendo visto o que a avó acabara de mencionar, logo tratou de fazer os seus reparos. Que uma mensagem não deve ser assim, deve dizer mais coisas e ter mais palavras.

A avó Filu achou por bem o reparo da sua neta querida e aproveitou para dizer que ela tinha razão e, portanto, nem se ia dar ao trabalho de responder.

Por sua vez, a Tânia, interveio para dizer que não, que a mãe deveria no mínimo agradecer. Então a avó Filu decidiu que responderia apenas com um “obrigado”. Sofia não se fez esperar e mais uma vez aconselhou a avó como responder devidamente à mensagem do beijooooooo:

- Então responde “obrigadooooooo”.


terça-feira, 25 de julho de 2017

A chegada do Pai Natal - 54


Sofia tinha ido para a cama a muito custo. Não queria dormir. Mas já passava da hora dela. Chamou a mãe vezes sem conta. Falava sozinha, fazia barulho e os pais já estavam cansados por ela não sossegar. Naquela noite lembrou-se que queria a luz da casa de banho acesa. Depois, já era a luz da cozinha. O facto é que não sossegava de jeito nenhum. De repente lembrei-me de lhe dizer umas palavras mágicas que resultaram na perfeição. Foi tiro e queda. Disse-lhe que faltava pouco para o Natal e como NY era uma cidade muito grande, o pai Natal já devia andar por aí...


Ela levantou a cabeça para ouvir melhor o que lhe estava a dizer, pois se era sobre o Natal, a conversa era importante, por isso, logo perguntou com uma interjeição "hum"? Continuei, dizendo-lhe que se o Pai Natal já andava por aí, era melhor apagar as luzes, assim, mesmo que ela não estivesse a dormir, ele pensaria que sim.

 

E de repente fui bruscamente interrompida por uma vozinha aflita, dizendo energicamente: "Ai, apaga, apaga!"

 

Apaguei as luzes e em cinco minutos a Sofia dormia que nem um anjo.

 

No outro dia quando a mãe perguntou o que se tinha passado que, de repente, sem mais nem menos, tinham deixado de a ouvir, a Sofia olhou para a mãe e respondeu: eu dumi. O pai Natal passou aqui na janela! 


Dani - 53


Eu estava de olho na criançada, enquanto estávamos todos na gelataria, desfrutando de sabores os mais variados, numa noite de calor.

 

Dani estava sentado no parapeito de pedra exterior da montra de uma loja, dando cabeçadas no vidro, pelo que a certa altura a senhora veio cá fora e disse-lhe qualquer coisa que não entendi, achando por bem intervir. 

 

Aproximei-me dele e disse-lhe que não podia dar cabeçadas no vidro porque podia parti-lo e ainda ficar magoado. Dani olhou para mim com o narizinho malandro empinado e com a sua carinha de desenho animado, olhos grandes e pestanudos, respondeu:

 

- "Já di e magoei-me".


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O Emílio - 52


O Emílio é um fofo e tem uma superpaciência com a Sofia que, contrariamente ao Emílio, está sempre muito agitada e grita com ele e nunca quer perder e se chateia muito, apesar de gostar muito do amiguinho.

 

Os dois estavam brincando em casa da Sofia que, como sempre, queria mandar em tudo e ditar as regras do jogo a seu belo prazer, falando ao mesmo tempo Inglês e Português. Inglês, porque residem nos Estados Unidos e Português porque, enquanto a Sofia é filha de portugueses, o Emílio é filho de mãe americana e pai brasileiro. E nesse dia a Sofia estava particularmente chata, tanto que, apesar de toda a sua paciência, o Emílio que é muito tranquilo, já estava a ficar tão cansado do desatino da amiguinha, que foi obrigado a ir ter com os pais dela, dizendo: "Ai, já tô ficando in-có-mó-da-do!..."

 


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O avô Armando - 51


Com quatro anos, a Sofia ainda não tem a noção da morte. E porque o avô paterno faleceu antes ainda de ela nascer, a mãe, saudosa do pai, de vez em quando, fala-lhe do avô Armando que está no céu.

 

Achando tão estranho ouvir falar em alguém que não pode vir e sem perceber que razão tão forte é essa, a Sofia já perguntou à mãe: 

 

- "Mas ele não vem porquê, não tem a chave?"

 

sábado, 1 de agosto de 2015

Os sonhos do Vasco - 50


O Vasco, que vive na Suíça, está de volta a Portugal com os pais e o irmãozinho, para passarem férias com a avó. Na casa de férias, o Vasco dorme no mesmo quarto com a avó Zá. 

 

Uma noite, à hora de se ir deitar, a avó deu-lhe as boas-noites e disse-lhe que tivesse "sonhos cor-de-rosa". 

 

Ao que parece, o Vasco não gostou muito dos sonhos cor-de-rosa, porque disse à avó: "não avó, não... sonhos cor-de-rosa, não". 

 

Apercebendo-se do lapso que eventualmente teria cometido, a avó então perguntou-lhe se podiam ser azuis, por exemplo. 

 

O Vasco, então, mais tranquilo, respondeu: "azuis, pode ser, sim, azuis".