terça-feira, 21 de janeiro de 2014

As cuecas da Sara - 39


Pequenininha, a Sara, teria uns dois anos, quando um dia fui com ela a uma loja ao lado do prédio onde moravam, porque ela queria qualquer coisa e a mãe estava ocupada, pelo que me pediu para a levar.

 

Enquanto eu tratava do assunto vi chegar ao pé dela um garotinho, sensivelmente da mesma idade. Ficou frente a frente com ela, encheu o peito de ar e apontava para o desenho da sua T-shirt, que ele não se cansava de exibir, tentando fazer inveja à Sara. Punha as mãozinhas com os dedos apontados aos vários pontos mais interessantes da t-shirt, ao mesmo tempo que bamboleava o corpo, numa ligeira dança para a direita e para a esquerda.

 

A Sara pequenita, com uma boneca debaixo do braço, olhava para o garoto aparentemente indiferente. Não liguei e continuei à procura do que tinha ido comprar. Até que, de repente, ouço a avó do garoto ralhar com ele, dizendo-lhe para estar quieto. Olhando, vejo então o garoto que continuava exibindo, cheio de vaidade, a sua t-shirt e a Sara, que tinha acabado de vestir umas cuequinhas novas com uns bonecos muito fofos, com o vestido levantado até às orelhas, barriga empinada para fora, rodando o corpo de um lado para o outro e apontando para os bonecos sobre o seu pipi. 

 

Pronto, não resistiu, e afinal não estava em desvantagem. Também tinha algo novo e bem giro, por sinal. Mas acima de tudo, muito adequado para mostrar.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Jacaré/crocodilo - 38


Quekuto é uma das crianças da comunidade Guineense, a quem a organização "Coração Sem Fronteiras" dá apoio escolar, na freguesia do Prior Velho.

 

Quekuto é um turbilhão de emoções, todas ao mesmo tempo. No ano passado eu não consegui trabalhar com ele, nem um pouco. Não nos entendemos de jeito nenhum. Ele entrava e saía, saía e entrava e voltava a entrar para imediatamente sair. Ignorava tudo e todos, sempre a refilar, só fazendo o que ele muito bem queria, com aquele ar reguila que todos lhe conhecem. E no ano passado, a solicitação das crianças era tão grande e as nossas dificuldades tantas que eu deixei-o ir na onda dele, sem fazer grandes esforços, porque também não era possível fazer mais, e milagres muito menos. Pensava eu.

 

Este ano, o Quekuto continua a ser o mesmo reguila, irrequieto, um desassossego completo, mas... há nele, nas mesmas proporções, um lado doce, carinhoso, sedento por ser mais e melhor, que no ano passado não me foi revelado. Este ano, Quekuto e eu fizemos as pazes e o milagre deu-se! E tem dias que a cada cinco minutos me pergunta exaustivamente "tou a portar bem?" E eu respondo "sim" e volta à carga "tou a portar bem?" Sim e ele continua, interrompendo a lição, as explicações, tudo, interrompendo a minha direcção, a minha linha de planeamento dos trabalhos, tudo, para esgotar a minha paciência com aquela lenga-lenga a que junta intencionalmente um toque de humildade, com o propósito de que eu não me arrependa de dizer "sim" porque, mais tarde, ambos sabemos que será cobrado. Uma vez Quekuto, sempre Quekuto.

 

Todavia, Quekuto já consegue estar onde os outros estão e ser como os outros são, nunca deixando de ser ele mesmo, pelo que com ele a atenção é redobrada, triplicada, enfim... é preciso chegar lá, porque eu sei que ele quer, quer muito ser bom na escola como é na bola. E ele pode, porque outros poderão não ser, mas ele é esperto, inteligente e apanha tudo com imensa facilidade. Já me chateei muito com ele este ano, já foi recado para casa e castigos no apoio. Mas, decididamente, este ano a coisa vai.

 

Há dias, estávamos na leitura e a páginas tantas aparece a palavra "jacaré", que ele leu sem grande dificuldade. Mas como eu sei que muito do vocabulário que eles lêem, desconhecem o significado e para não deixar as crianças na ignorância, prefiro perguntar se sabem o que é. Foi o que fiz. Perguntei-lhe se sabia o que era um jacaré. Ele olhou para mim, abanando a cabeça várias vezes em sinal afirmativo, com aqueles seus olhos grandes, que dizem e exprimem o tumulto que lhe vai na alma de criança. E para ter a certeza de que ele realmente sabia e não só - é necessário que saibam exprimir-se de modo mais fluente -, pedi-lhe que dissesse o que era um jacaré. Ele voltou a olhar para mim com um olhar mais tranquilo, o que significava que sabia o que era. Mas eu estava curiosa, porque para mim um jacaré e um crocodilo são a mesma coisa. Não são, mas confesso a minha ignorância. Por isso queria ver como é que ele se saía com aquela resposta. 


E sem se atrapalhar, olhando nos meus olhos, primeiro vieram todos os tiques nervosos, abrir e fechar de olhos automático, depois começou a surgir o som aos solavancos, a mastigação nervosa e finalmente, por entre a gaguês:

 

- U u  um jacaré é ummm crocodilo.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Beijinho - 37


Todas as crianças têm fases muito próprias, inerentes ao crescimento. Elas são as mais variadas e vão passando para dar lugar a outras. Assim, e por exemplo, a Sofia que nunca foi piegas, caía e levantava-se sozinha, independentemente de ter batido nalgum sítio, não se queixava, não chorava, voltava à brincadeira sem dar a menor importância. Mas, então, chegou finalmente na fase do "doidói". E por tudo e por nada é o dodói e com ele, o beijinho mágico que cura todos os "doidóis" do mundo... ou quase todos.

 

A mãe estava a mudar-lhe uma fralda, porque ela já faz xixi no bacio, mas cocó não. Não gosta de ver, não gosta do cheiro, há ali qualquer coisa que a impede de aceitar que aquela coisa nojenta vem de dentro dela. Por isso, quando chega a altura, tem que pôr a fralda para fazer e tão depressa o faz, anuncia logo que já está, para se livrar daquilo logo de seguida, sem se fazer esperar.

 

Estava ela numa destas mudanças estratégicas de fralda, quando a mãe sem querer lhe deu uma cotovelada no tal do "pipi", como ela diz. Ela logo se queixou, alertando a mãe que a tinha magoado. A mãe disse-lhe que tinha sido sem querer e com a doçura de mãe, pediu-lhe muita desculpa e tal e coisa. A reacção da Sofia, porém, não se fez esperar:

 

- Descupa nãaaaaao...! Bêjiiinho...  (!?)



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A casa do futuro - 36


É verdade, a minha pequena Sofia foi com os pais ao Museu das Telecomunicações e foi ver a Casa do Futuro.

 

Ao que parece, gostou muito e quando mais tarde lhe perguntaram onde tinha ido, ela que está habituada a ir sempre a casa de alguém e nunca a casa de ninguém, onde o sujeito é indeterminado, prontamente respondeu:

 

- "À caja do sinhô Futuro" (!)



domingo, 3 de novembro de 2013

As pantufas - 35


A Tânia estava a despir a Sofia para o banho que já estava preparado, com a espuma a transbordar da banheira. E depois da fralda que era a última peça, pegou nela para a meter na banheira.

 

Estranhamente, a pequena Sofia começou a barafustar e a recusar o banho. Não queria de maneira nenhuma entrar no banho. Dizia "nhão, nhão... mamã nhão, nhão, banho nhão", sempre chorando e esperneando.

 

A Tânia estranhou muito aquela reacção, pois desde o primeiro banho, ela adora a água e aquela hora é sempre muito relaxante para ela e muito bem apreciada. De modo que a Tânia não estava a entender nada.

 

Finalmente, mas contrariada e a muito custo, a Sofia entrou na banheira, com a mãe a tentar controlar a situação. E quando já estava distraída com os seus brinquedos do banho, no meio daquela espuma toda, eis que um pézinho vem à superfície e a Tânia vê a Sofia com as pantufas calçadas no banho...

 

Criança tem sempre razão!



Um fio de cabelo - 34


Estávamos sentadas no banco de trás do carro, eu e a Sofia, na sua cadeirinha obrigatória para crianças pequenas. O pai e a mãe à frente, íamos para o parque, para ela brincar um pouco até ao final da tarde, aproveitando o sol do Outono, sempre muito bem vindo.

 

Eu ia brincando com ela, porque é uma delícia a comunicação com as crianças, quando reparei que ela tinha um fio de cabelo num canto da sua linda boquinha. Tirei o cabelo e na frente dos meus olhos e dos dela, peguei nas extremidades, dizendo-lhe que era um cabelo dela. Então, ela olhou para mim com um ar solene e autoritário e com o minúsculo dedinho indicador esticado, que levou à cabeça, disse: "Põe..."

 

Percebi. Aquele cabelo tinha que voltar para a cabeça dela. Era lá o lugar dele. Fiquei a olhar para ela, com o fiozinho de cabelo na mão sem ter nenhuma reacção, mas cheia de vontade de rir, quando ela insistiu, dando a entender que eu não estava a obedecer à sua ordem. Levou o indicador novamente à cabeça e batendo várias vezes com o dedo no cabelo dela, voltou a ordenar "Põe"!... 

 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Banco - 33


A Sofia que está com dois aninhos tem um mealheiro que esta avó lhe comprou quando era ainda muito pequenina. Lembro-me de que as primeiras moedas tinham que ser ajudadas, pois os minúsculos dedinhos ainda não tinham accionamento suficiente para conseguir sozinha acertar com as moedas na ranhura. Mas com a nossa ajuda, entre os nossos e os dedos dela, a coisa lá ia acontecendo. Com alguma ginástica e com mais ou menos tempo, as moedas acabavam encontrando o seu caminho até se ouvir o "tlim", no metal do mealheiro.

 

Presentemente, damos-lhe as moedas e ela lá vai a correr tirar o mealheiro que está num lugar certo, sendo que não precisa mais de ajuda nenhuma. Os dedinhos já estão super desenvoltos e é num instante que ela faz as moedas caírem lá dentro.

 

Também com o tempo as moedas foram tendo um percurso cada vez menor porque o mealheiro está quase cheio e dentro em pouco já não haverá espaço para mais.

 

Acontece que eu já tinha dito à Tânia que quando estivesse cheio se abrisse para comprarem algo para ela, e eu compraria outro mealheiro para substituir aquele, mas a Tânia disse que ela não precisava de nada e preferia pôr no Banco, o que achei uma óptima ideia.

 

Assim, um dia destes, cheguei lá a casa e pouco depois chamei a pequena Sofia, dando-lhe três moedas de euro para o mealheiro. Entretanto, a mãe também lhe deu mais uma e lá foi ela ligeirinha buscar o mealheiro para introduzir as moedas, o que fez num ápice. Pelo tilintar percebi que estava já cheio e disse-lhe que estava na altura de pedir à mamã para pôr o dinheiro que estava dentro do mealheiro no banco, para ela ficar com "muito dinheiro".

 

A Sofia já tem a noção de que as coisas são adquiridas com dinheiro. Já percebeu que, se quer alguma coisa, tem que comprar e para comprar é preciso dinheiro. E como eu lhe disse que a mamã ia por no Banco para ficar com mais dinheiro, não perdeu tempo. Foi a correr ter com a mãe, com o mealheiro nas mãos, a quem o entregou. Com a mãe a segurar o mealheiro, tirou a cadeirinha minúscula onde se costuma sentar para desenhar e pintar e fazer outras coisas, na sua mesinha igualmente minúscula, própria para crianças daquela idade. Puxou um banquinho do tamanho da cadeira, arrastou para fora da mesa, olhou para a mãe e disse: "mamã, põe no banco"... (!)


domingo, 22 de setembro de 2013

Não fá máli - 32


Mais uma história da Sofia que, como todas as crianças, está sempre a proporcionar-nos momentos deliciosos, mais os que aqui não são contados, porque não é possível descrevê-los por palavras.

 

Sedenta de entrar no mundo dos mais crescidos, ela tenta imitar os primos e os adultos com quem convive no dia a dia. Tudo o que ouve e vê, ela repete com certeza, a menos que... algum receio se sobreponha.

 

E às vezes acontece. Ela quer fazer e chegar onde os mais velhos chegam, mas apesar da sua tão tenra idade, o instinto fala mais alto e ela sabe que pode não ser seguro para ela.

 

Por exemplo, acontece isso na praia, ao entrar na água do mar que ela adora, mas(!)... e com os animais, que ela tanto gosta e quer fazer festas e tocar, mas(!)...

 

E quando a coisa é pacífica e eu, na qualidade de avó, percebo que não há perigo, incentivo, para que ela perceba que não faz mal e que pode ir em frente sem receio. E vou sempre dizendo "não faz mal, Sofia, não faz mal".

 

E à força de tanto encorajá-la e de tanto repetir a mesma frase do não faz mal, ela começou a surpreender a mãe, ao passar muito perto de um animal, ou em outra situação em que ela fica receosa. E antes que a mãe diga alguma coisa, mesmo com a vozinha a tremer e toda aflita, tremelicando por todos os lados, vai dizendo para a mãe, "não fá máli... nãaao fá má-li, nãaaaaao fáaaa máaaa-li"...

 

Mas a coisa vai.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Gellato - 31


A Sofia fez muito recentemente dois anos e por isso anda a aprender a deixar as fraldas.

 

No último dia que estive com ela, como de costume, fui buscá-la à creche e depois fomos comer um "gellato", que ela adora, como todas as crianças.

 

Comeu o gelado, que era grande e achei que tinha ficado muito cheia. Na brincadeira, disse-lhe que a barriguinha dela estava muito cheia, que o gelado tinha entrado pela boca, tinha descido e estava na barriga, por isso a barriga estava cheia. Ela gostou de ouvir aquilo, por isso, continuei com o percurso do gelado, dizendo-lhe que depois o gelado havia de sair pelo cocó. Ela ouviu, repetiu o que eu disse e lá fomos nós passear e andar no cavalinho.

 

Estava na hora de ir para casa brincar mais um pouquinho, tomar banho e jantar. A rotina do seu dia-a-dia.

 

Estava sentada na sua cadeirinha Ikea, de que ela tanto gosta, porque é do tamanho dela, quando de repente senti um cheiro mau. Levantando-se muito rapidamente, informou "cocó, cocó". Olhei para ela e percebi que já estava feito, mas ainda não tinha acabado. Então, disse-lhe que já não dava tempo de ir ao bacio e que era melhor fazer na fralda. Assim que acabou quis ir mudar a fralda porque já não se sente bem suja. E entre a brincadeira lá fomos mudar a fralda.

 

Voltámos para a sala e uma meia hora depois novamente se levantou do chão e pondo-se de pé, começou a dizer "cocó, cocó". Achei estranho, porque ela tinha feito há tão pouco tempo, por isso perguntei-lhe se era mesmo cocó ou se era chi-chi. Ela pensou um pouquinho e depois, abanando a cabeça respondeu "não, não... é o gellato"...

 

sábado, 27 de julho de 2013

Sim e não - 30


Estavam na praia os primos todos, enquanto os pais vigiavam e conversavam.

 

Dizia a Tânia que a Sofia, que agora completou dois anos e que fala tudo, só sabe dizer "não". Diz que não a tudo, não sabe dizer sim, é só não.

 

O Diogo que tem três anos, ouviu a tia falar estas coisas da priminha e deve ter ficado intrigado... afinal era tão simples dizer que sim... por isso foi atrás dela na tentativa de lhe dar talvez a sua primeira lição de mais velho e responsável, já que ninguém o tinha feito e disse-lhe: 

 

- Sofia, eu quando não quero uma coisa, digo "não" e quando quero, digo "sim" (!).



terça-feira, 2 de julho de 2013

O "mano" - 29


O Diogo foi filho único até aos quatro anos. O convívio dele com os primos é muito grande e adoram brincar e estar todos juntos.

 

Ele tem um primo pouco mais velho do que ele, que tem uma irmãzinha mais pequena e que trata o irmão, o Gonçalo, por "mano". Como ela e o Diogo têm sensivelmente a mesma idade, ele sempre a ouviu chamar o irmão de "mano", pelo que também sempre chamou o primo da mesma maneira, ignorando completamente o nome e o parentesco. Até porque o "mano" era o seu herói e ele fazia tudo o que o outro fazia. E para ele, o primo era o mano. Se para a prima o Gonçalo era o mano, porque é que para ele tinha que ser diferente?

 

Com a chegada do irmãozinho a coisa esclareceu-se, mas não tanto. É que agora o Diogo tem finalmente, também ele, um "mano", o Daniel, que é um mano de verdade. E então, ficou de uma vez por todas a saber que o outro mano não era realmente mano, mas primo.

 

Mas ainda assim ficou com uma dúvida e por isso, outro dia, ele fez a seguinte pergunta à mãe:

 

- "Oh mãe, quando o mano crescer também vai ser meu primo?"...

 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Sofia e a fruta - 28


A Sofia é a minha neta querida e adorada, que tem dezoito meses. A Sofia é alegre e comunicativa e apesar de ser muito disciplinada, porque segue toda a sua rotina sem barafustar, é muito sociável. Adora festas, ambientes agitados onde há outras crianças e bastante diversão. Ela aprecia a rotina diária, mas também gosta de mudanças.

 

Mas acima de tudo, a Sofia gosta de comer. Com os seus dezoito mesinhos apenas, ela é aquilo a que se chama um "bom garfo", mas com a "culhé". Ela sempre quer a "culhé" que vai sempre para a boca, mesmo que não tenha nada. E troca tudo, até um brinquedo, por um sabor, qualquer que ele seja, porque nem sequer é esquisita. Adora o "ogut" na hora do lanche ou a sobremesa de fruta, que acompanha com bolacha.

 

E como já fala muito, quando a mãe lhe diz, "Sofia vamos lanchar", lá vai ela toda apressada, a correr, direita à cadeira das refeições, senta-se, pede o babete que não dispensa; a "culhé" e depois do seu "ogut", que para ela não chega, estica o braço e com a mãozinha gorduchinha e os dedos esticados, começa a apontar para o tal sítio, dizendo "qué püta... qué püta..." e enquanto vai comendo o seu manjar com a "culhé", vai olhando para nós e dizendo "bom püta"... "bom, püta"...!


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Tamy e Tutu (Nathan) - 27


A Tamy e o Tutu iam no carro com a mãe. A Tamy falava, falava e o Tutu também queria falar, mas ela não deixava o irmãozinho falar. Disse-lhe que ele só podia falar quando ela terminasse. E assim o Tutu ficou caladinho, enquanto a Tamy continuava a falar. Quando finalmente ela acabou, virou-se para o irmão dizendo: "Tutu, já terminei, você não queria falar, então, já pode".

 

O Tutu respondeu: "agora já não lembro mais, você falou tanto, que esqueci; não pode falar assim tanto tempo; as pessoas falam muito; não pode".

 

A Tamy, por sua vez, respondeu: "pode sim, as pessoas podem falar muito; a gente tem uma tia que fala sempre muito"(!).

 

A mãe, percebendo onde ela queria chegar, fingiu que não sabia a quem ela se referia e perguntou quem era a tia que falava muito. Ela disse que não se lembrava do nome e a mãe foi dizendo os nomes que sabia que não eram e a cada um que dizia ela respondia negativamente. Tendo esgotado a lista, foi directa ao assunto e perguntou se era a titia Clarinha. Então a Tamy respondeu: "sim, essa mesmo, a titia Clarinha, ela fala muito e a gente deixa ela falar sempre, todo o tempo que ela quer"... (!?)



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Via Sacra - 26


A Tamy tinha cinco aninhos. Numa sexta-feira santa ouviu qualquer coisa estranha vinda do exterior, da varanda do seu décimo nono andar, na Barrafunda, em S. Paulo e foi averiguar.

 

Olhando lá para baixo e vendo a via sacra a passar chamou a mãe, dizendo: "mamãe vem, vem ver... tem uma escola de samba passando"... (!)



quarta-feira, 23 de março de 2011

A Tamy - 25


A Tathi e o Ilan vinham do supermercado com o carro cheio de sacos e mais sacos de compras. A Tathi entrou à frente e largou os sacos na entrada. Os dois, Tamy e Tutu, foram a correr ajudar a mãe e pegaram em sacos para levar para dentro. Ao mesmo tempo o Ilan entrou e a Tathi disse à Tamy que largasse os sacos, porque mulher não carregava sacos e explicou-lhe que era para isso que os homens existiam, para carregarem(!). A Tamy muito espantada, como se não tivesse ouvido bem, perguntou: "é mamãe"? A mãe, com segurança e firmeza, respondeu: "claro"!

 

A Tamy não precisou de ouvir mais nada. No mesmo instante atirou os sacos para o irmãozinho menor, de três anos, que vinha atrás dela, esforçando-se o quanto podia para arrastar um saco para dentro, virou a cabeça levantando o queixo numa pose de grande dama que já ganhou os seus direitos de mulher, pelo menos em casa, e sacudindo as mãos, com um certo desprezo disse: "levi". E o Tutu, feliz da vida por ser homem e ter uma missão, lá foi arrastando, conforme podia. 


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Afonso nos EUA - 24


A Clara foi dar aulas para os Estados Unidos e o Afonso, que era muito pequeno, teve que ir com a mãe. A Clara teve que pô-lo na escola, pois não tinha com quem o deixar. Acontece que isto foi imediatamente a seguir ao 11 de Setembro, o atentado às torres gémeas e a América estava em choque e em alerta total. O Afonso estava um pouco desintegrado do seu novo ambiente e como era muito pequeno ainda não falava inglês, além de que era a primeira vez que estava nos Estados Unidos.

 

Então deu-se um incidente que hoje tem imensa piada. Logo no primeiro dia resolveu inspecionar por sua conta e risco tudo o que lhe chamava a atenção e viu um extintor de fogo, que talvez nunca tivesse visto. Curioso, achou aquilo engraçado e decidiu averiguar de perto. Não contente com isso, tocou em algo que desencadeou o funcionamento do extintor que, por sua vez accionou o alarme, que automaticamente se ligou à central de segurança e por aí fora.

 

As coisas foram esclarecidas, mas o Afonso nesse dia foi notícia - uma criança de cinco anos, de nacionalidade portuguesa, conseguiu pôr a América em alerta total.

 

Viva o Afonso, no seu melhor!

 

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O xaile da Sara - 23


A Sara era uma verdadeira hippy quando era criança. Mas uma hippy deste milénio e mais, uma hippy muito requintada e de muito bom gosto. Era um espectáculo ver como ela tão pequena, sabia escolher roupa e conjugar as peças e respectivos acessórios com um apuradíssimo sentido de estética. Super graciosa.

 

Ela teria uns cinco aninhos, quando se usaram uns xailes de rede que se colocavam em cima de qualquer peça de roupa ou à volta da anca ou na cintura, enfim, usavam-se os xailes de toda a maneira e feitio. Eu tinha um, que usava constantemente, com tudo. E um Sábado, saí de manhã com a Sara levando o meu xaile. Ela gostou muito e pediu-me para lhe comprar um. Entrámos numa loja, procurámos e encontrámos um à medida dela. Era vermelho, em rede muito larga, com cadilhos nas pontas. Muito simples. Mas ela adorou e logo tratou de usá-lo.

 

Um dia fomos para a Tróia. Estava um belo dia de calor. Já no caminho de regresso, mal abandonámos a praia, ela deve ter-se lembrado que tinha na bolsa o xaile e diz na sua vozinha doce e baixinho, mas cheia de propriedade: "podem esperar um bocadinho, por favor". Nós virámos-nos para ela e parámos. Ela continuou: "é que estou com um bocadinho de frio" e agachou-se para procurar qualquer coisa no saco. Entretanto, eu pensava com os meus botões, como seria possível ela ter frio se estava um calor de rachar. Teria ficado tempo demais dentro de água? Estaria com resfriado? Enfim, uma leve preocupação passou por mim e estávamos todos parados à espera, quando ela saca de lá o seu encantado xaile de linha todo em rede bem larga e num gesto sobejamente feminino, coloca sobre os ombrinhos, meio descaído, perante os nossos olhares meio admirados, dizendo: "pronto, podemos continuar".

 

Está certo, o xaile precisava de arejar e o "frio" era uma boa razão para o exibir, até porque complementava o seu perfil de hippy.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

O preservativo - 22


Estávamos no supermercado, eu e o Henrique. Como habitual, fiz as compras que precisava e dirigi-me à caixa para pagar, pelo que me coloquei numa fila, aguardando a minha vez. De repente, eis que vejo nos expositores da caixa onde estava, entre outras coisas, preservativos. E eu que andava há tanto tempo para comprá-los! Assim como assim, estava divorciada, sozinha, e não é que tivesse muito tempo para isso, nem sequer muitas oportunidades, mas nunca se sabe e o seguro morreu de velho. 

 

Já tinha ido à farmácia várias vezes, sem sucesso, pois não sabia como pedir e ficava sempre intimidada. Faltava-me sempre o à vontade suficiente para ultrapassar o preconceito e agora não tinha que pedir a ninguém, pois estavam mesmo diante dos meus olhos, era só dar um passo, esticar o braço e discretamente, ninguém perceberia nada. Ainda olhei à minha volta a ver se o ambiente estava calmo, a ver se o Henrique estava distraído e não só. Parecia que ninguém estava a olhar para mim. Além do mais, aquilo estava exposto, portanto, era só tirar e ninguém tinha nada com isso. 

 

Olhei bem para eles, ainda um pouco distante, e percebi que não era assim tão fácil, porque havia vários tamanhos, etc... Bom, novamente o impasse. Olhei, olhei, verifiquei mais uma vez se não havia muita assistência e num acto verdadeiramente corajoso, estiquei o braço e com a mão peguei naquela coisa, que coloquei de imediato nas minhas compras. Puf!... Tão simples e tão difícil. E chegou a minha vez na caixa.

 

 O Henrique, que nunca me ajudava naquela tarefa, nesse dia resolveu dar uma ajudinha à mãe. Assim, à medida que a empregada fazia o registo, ele pegava e guardava. Eu, que ainda não estava muito segura da minha compra dos preservativos, fui atrasando, pondo tudo à frente e deixando aquilo para trás, até que chegou a hora. Apetecia-me enterrar-me pelo chão abaixo ao ver aquilo deslizar na passadeira a olhos vistos, até chegar às mãos da empregada. Uma eternidade! Já me tinha arrependido da coragem que tinha tido. Agora não havia nada a fazer, mas finalmente foi liberado e pude respirar de alívio. Foi então que aconteceu um imprevisto.

 

Chegou às mãos do Henrique e o Henrique que nunca me ajudava com as compras, nesse dia resolveu ajudar e depois de todos os meus esforços para não dar nas vistas, pega, e em vez de guardar, observa e com o seu espírito aguçado de investigador e cientista, pergunta: "mãe, o que é isto?" 

 

Eu, que estava distraída a pagar, achando que estava a salvo, respondo sem olhar: "isto o quê?" "Olha": diz ele. Enquanto a rapariga acertava o pagamento, olho e que vejo? Ele, com os preservativos na mão, ingénuo, completamente a leste do paraíso. Rápida e energicamente disse, na minha voz de comando número um: "guarda". Mas ele não obedeceu e não se calava: "oh mãe, mas eu nunca vi isto, a mãe, antes, nunca comprou isto" e eu, furiosa da vida, depois de tanta luta pela discrição, só dizia: "guarda... guarda". Eu já gritava com ele, mas ele, persistente como só ele mesmo, continuava a querer saber o que raio era aquilo e não guardava no saco de maneira nenhuma.

 

E assim, todo o supermercado ficou a saber que eu comprei preservativos.

 

Isto é que é vida! - 21


O Thiago fez um almoço de convívio para a família e pediu para levarem doces e vinhos.

 

A Tathi resolveu então passar numa doçaria e comprar um bolo de chocolate para levar para casa do irmão.

 

Quando chegou à loja saiu do carro e a Tamy foi com ela. Entraram e a Tamy pediu à mãe para lhe comprar um chocolatinho.

 

Enquanto a mãe tratava de escolher o bolo, a Tamy, nos seus quatro aninhos acabados de fazer, sentou-se muito refastelada na cadeira de uma das mesas da doçaria, enquanto se deliciava com o chocolate e gritava para a mãe, que estava no balcão: "Isto é que é vida, né mamãe!"


segunda-feira, 26 de abril de 2010

A torta de cenoura - 20


O João Bernardo estava na pré-adolescência e tinha peso a mais para a sua idade. Precisava de fazer uma dietazinha, o que era difícil, porque gostava muito de comer.

 

Um dia a empregada fez uma torta de cenoura que ele adorou e duma assentada comeu metade da torta.

 

O pai foi o primeiro a chegar a casa e quando viu aquilo ficou indignadíssimo com a quantidade absurda de bolo que ele tinha comido e porque, mais uma vez, não tinha conseguido gerir o seu apetite devorador. Como era de esperar repreendeu-o, dizendo-lhe que não devia ter feito uma coisa daquelas.

 

Ele, muito infeliz, respondeu "oh pai, a torta era de legumes (cenoura), pensei que não fazia mal!"