domingo, 22 de setembro de 2013

Não fá máli - 32


Mais uma história da Sofia que, como todas as crianças, está sempre a proporcionar-nos momentos deliciosos, mais os que aqui não são contados, porque não é possível descrevê-los por palavras.

 

Sedenta de entrar no mundo dos mais crescidos, ela tenta imitar os primos e os adultos com quem convive no dia a dia. Tudo o que ouve e vê, ela repete com certeza, a menos que... algum receio se sobreponha.

 

E às vezes acontece. Ela quer fazer e chegar onde os mais velhos chegam, mas apesar da sua tão tenra idade, o instinto fala mais alto e ela sabe que pode não ser seguro para ela.

 

Por exemplo, acontece isso na praia, ao entrar na água do mar que ela adora, mas(!)... e com os animais, que ela tanto gosta e quer fazer festas e tocar, mas(!)...

 

E quando a coisa é pacífica e eu, na qualidade de avó, percebo que não há perigo, incentivo, para que ela perceba que não faz mal e que pode ir em frente sem receio. E vou sempre dizendo "não faz mal, Sofia, não faz mal".

 

E à força de tanto encorajá-la e de tanto repetir a mesma frase do não faz mal, ela começou a surpreender a mãe, ao passar muito perto de um animal, ou em outra situação em que ela fica receosa. E antes que a mãe diga alguma coisa, mesmo com a vozinha a tremer e toda aflita, tremelicando por todos os lados, vai dizendo para a mãe, "não fá máli... nãaao fá má-li, nãaaaaao fáaaa máaaa-li"...

 

Mas a coisa vai.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Gellato - 31


A Sofia fez muito recentemente dois anos e por isso anda a aprender a deixar as fraldas.

 

No último dia que estive com ela, como de costume, fui buscá-la à creche e depois fomos comer um "gellato", que ela adora, como todas as crianças.

 

Comeu o gelado, que era grande e achei que tinha ficado muito cheia. Na brincadeira, disse-lhe que a barriguinha dela estava muito cheia, que o gelado tinha entrado pela boca, tinha descido e estava na barriga, por isso a barriga estava cheia. Ela gostou de ouvir aquilo, por isso, continuei com o percurso do gelado, dizendo-lhe que depois o gelado havia de sair pelo cocó. Ela ouviu, repetiu o que eu disse e lá fomos nós passear e andar no cavalinho.

 

Estava na hora de ir para casa brincar mais um pouquinho, tomar banho e jantar. A rotina do seu dia-a-dia.

 

Estava sentada na sua cadeirinha Ikea, de que ela tanto gosta, porque é do tamanho dela, quando de repente senti um cheiro mau. Levantando-se muito rapidamente, informou "cocó, cocó". Olhei para ela e percebi que já estava feito, mas ainda não tinha acabado. Então, disse-lhe que já não dava tempo de ir ao bacio e que era melhor fazer na fralda. Assim que acabou quis ir mudar a fralda porque já não se sente bem suja. E entre a brincadeira lá fomos mudar a fralda.

 

Voltámos para a sala e uma meia hora depois novamente se levantou do chão e pondo-se de pé, começou a dizer "cocó, cocó". Achei estranho, porque ela tinha feito há tão pouco tempo, por isso perguntei-lhe se era mesmo cocó ou se era chi-chi. Ela pensou um pouquinho e depois, abanando a cabeça respondeu "não, não... é o gellato"...

 

sábado, 27 de julho de 2013

Sim e não - 30


Estavam na praia os primos todos, enquanto os pais vigiavam e conversavam.

 

Dizia a Tânia que a Sofia, que agora completou dois anos e que fala tudo, só sabe dizer "não". Diz que não a tudo, não sabe dizer sim, é só não.

 

O Diogo que tem três anos, ouviu a tia falar estas coisas da priminha e deve ter ficado intrigado... afinal era tão simples dizer que sim... por isso foi atrás dela na tentativa de lhe dar talvez a sua primeira lição de mais velho e responsável, já que ninguém o tinha feito e disse-lhe: 

 

- Sofia, eu quando não quero uma coisa, digo "não" e quando quero, digo "sim" (!).



terça-feira, 2 de julho de 2013

O "mano" - 29


O Diogo foi filho único até aos quatro anos. O convívio dele com os primos é muito grande e adoram brincar e estar todos juntos.

 

Ele tem um primo pouco mais velho do que ele, que tem uma irmãzinha mais pequena e que trata o irmão, o Gonçalo, por "mano". Como ela e o Diogo têm sensivelmente a mesma idade, ele sempre a ouviu chamar o irmão de "mano", pelo que também sempre chamou o primo da mesma maneira, ignorando completamente o nome e o parentesco. Até porque o "mano" era o seu herói e ele fazia tudo o que o outro fazia. E para ele, o primo era o mano. Se para a prima o Gonçalo era o mano, porque é que para ele tinha que ser diferente?

 

Com a chegada do irmãozinho a coisa esclareceu-se, mas não tanto. É que agora o Diogo tem finalmente, também ele, um "mano", o Daniel, que é um mano de verdade. E então, ficou de uma vez por todas a saber que o outro mano não era realmente mano, mas primo.

 

Mas ainda assim ficou com uma dúvida e por isso, outro dia, ele fez a seguinte pergunta à mãe:

 

- "Oh mãe, quando o mano crescer também vai ser meu primo?"...

 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Sofia e a fruta - 28


A Sofia é a minha neta querida e adorada, que tem dezoito meses. A Sofia é alegre e comunicativa e apesar de ser muito disciplinada, porque segue toda a sua rotina sem barafustar, é muito sociável. Adora festas, ambientes agitados onde há outras crianças e bastante diversão. Ela aprecia a rotina diária, mas também gosta de mudanças.

 

Mas acima de tudo, a Sofia gosta de comer. Com os seus dezoito mesinhos apenas, ela é aquilo a que se chama um "bom garfo", mas com a "culhé". Ela sempre quer a "culhé" que vai sempre para a boca, mesmo que não tenha nada. E troca tudo, até um brinquedo, por um sabor, qualquer que ele seja, porque nem sequer é esquisita. Adora o "ogut" na hora do lanche ou a sobremesa de fruta, que acompanha com bolacha.

 

E como já fala muito, quando a mãe lhe diz, "Sofia vamos lanchar", lá vai ela toda apressada, a correr, direita à cadeira das refeições, senta-se, pede o babete que não dispensa; a "culhé" e depois do seu "ogut", que para ela não chega, estica o braço e com a mãozinha gorduchinha e os dedos esticados, começa a apontar para o tal sítio, dizendo "qué püta... qué püta..." e enquanto vai comendo o seu manjar com a "culhé", vai olhando para nós e dizendo "bom püta"... "bom, püta"...!


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Tamy e Tutu (Nathan) - 27


A Tamy e o Tutu iam no carro com a mãe. A Tamy falava, falava e o Tutu também queria falar, mas ela não deixava o irmãozinho falar. Disse-lhe que ele só podia falar quando ela terminasse. E assim o Tutu ficou caladinho, enquanto a Tamy continuava a falar. Quando finalmente ela acabou, virou-se para o irmão dizendo: "Tutu, já terminei, você não queria falar, então, já pode".

 

O Tutu respondeu: "agora já não lembro mais, você falou tanto, que esqueci; não pode falar assim tanto tempo; as pessoas falam muito; não pode".

 

A Tamy, por sua vez, respondeu: "pode sim, as pessoas podem falar muito; a gente tem uma tia que fala sempre muito"(!).

 

A mãe, percebendo onde ela queria chegar, fingiu que não sabia a quem ela se referia e perguntou quem era a tia que falava muito. Ela disse que não se lembrava do nome e a mãe foi dizendo os nomes que sabia que não eram e a cada um que dizia ela respondia negativamente. Tendo esgotado a lista, foi directa ao assunto e perguntou se era a titia Clarinha. Então a Tamy respondeu: "sim, essa mesmo, a titia Clarinha, ela fala muito e a gente deixa ela falar sempre, todo o tempo que ela quer"... (!?)



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Via Sacra - 26


A Tamy tinha cinco aninhos. Numa sexta-feira santa ouviu qualquer coisa estranha vinda do exterior, da varanda do seu décimo nono andar, na Barrafunda, em S. Paulo e foi averiguar.

 

Olhando lá para baixo e vendo a via sacra a passar chamou a mãe, dizendo: "mamãe vem, vem ver... tem uma escola de samba passando"... (!)



quarta-feira, 23 de março de 2011

A Tamy - 25


A Tathi e o Ilan vinham do supermercado com o carro cheio de sacos e mais sacos de compras. A Tathi entrou à frente e largou os sacos na entrada. Os dois, Tamy e Tutu, foram a correr ajudar a mãe e pegaram em sacos para levar para dentro. Ao mesmo tempo o Ilan entrou e a Tathi disse à Tamy que largasse os sacos, porque mulher não carregava sacos e explicou-lhe que era para isso que os homens existiam, para carregarem(!). A Tamy muito espantada, como se não tivesse ouvido bem, perguntou: "é mamãe"? A mãe, com segurança e firmeza, respondeu: "claro"!

 

A Tamy não precisou de ouvir mais nada. No mesmo instante atirou os sacos para o irmãozinho menor, de três anos, que vinha atrás dela, esforçando-se o quanto podia para arrastar um saco para dentro, virou a cabeça levantando o queixo numa pose de grande dama que já ganhou os seus direitos de mulher, pelo menos em casa, e sacudindo as mãos, com um certo desprezo disse: "levi". E o Tutu, feliz da vida por ser homem e ter uma missão, lá foi arrastando, conforme podia. 


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Afonso nos EUA - 24


A Clara foi dar aulas para os Estados Unidos e o Afonso, que era muito pequeno, teve que ir com a mãe. A Clara teve que pô-lo na escola, pois não tinha com quem o deixar. Acontece que isto foi imediatamente a seguir ao 11 de Setembro, o atentado às torres gémeas e a América estava em choque e em alerta total. O Afonso estava um pouco desintegrado do seu novo ambiente e como era muito pequeno ainda não falava inglês, além de que era a primeira vez que estava nos Estados Unidos.

 

Então deu-se um incidente que hoje tem imensa piada. Logo no primeiro dia resolveu inspecionar por sua conta e risco tudo o que lhe chamava a atenção e viu um extintor de fogo, que talvez nunca tivesse visto. Curioso, achou aquilo engraçado e decidiu averiguar de perto. Não contente com isso, tocou em algo que desencadeou o funcionamento do extintor que, por sua vez accionou o alarme, que automaticamente se ligou à central de segurança e por aí fora.

 

As coisas foram esclarecidas, mas o Afonso nesse dia foi notícia - uma criança de cinco anos, de nacionalidade portuguesa, conseguiu pôr a América em alerta total.

 

Viva o Afonso, no seu melhor!

 

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O xaile da Sara - 23


A Sara era uma verdadeira hippy quando era criança. Mas uma hippy deste milénio e mais, uma hippy muito requintada e de muito bom gosto. Era um espectáculo ver como ela tão pequena, sabia escolher roupa e conjugar as peças e respectivos acessórios com um apuradíssimo sentido de estética. Super graciosa.

 

Ela teria uns cinco aninhos, quando se usaram uns xailes de rede que se colocavam em cima de qualquer peça de roupa ou à volta da anca ou na cintura, enfim, usavam-se os xailes de toda a maneira e feitio. Eu tinha um, que usava constantemente, com tudo. E um Sábado, saí de manhã com a Sara levando o meu xaile. Ela gostou muito e pediu-me para lhe comprar um. Entrámos numa loja, procurámos e encontrámos um à medida dela. Era vermelho, em rede muito larga, com cadilhos nas pontas. Muito simples. Mas ela adorou e logo tratou de usá-lo.

 

Um dia fomos para a Tróia. Estava um belo dia de calor. Já no caminho de regresso, mal abandonámos a praia, ela deve ter-se lembrado que tinha na bolsa o xaile e diz na sua vozinha doce e baixinho, mas cheia de propriedade: "podem esperar um bocadinho, por favor". Nós virámos-nos para ela e parámos. Ela continuou: "é que estou com um bocadinho de frio" e agachou-se para procurar qualquer coisa no saco. Entretanto, eu pensava com os meus botões, como seria possível ela ter frio se estava um calor de rachar. Teria ficado tempo demais dentro de água? Estaria com resfriado? Enfim, uma leve preocupação passou por mim e estávamos todos parados à espera, quando ela saca de lá o seu encantado xaile de linha todo em rede bem larga e num gesto sobejamente feminino, coloca sobre os ombrinhos, meio descaído, perante os nossos olhares meio admirados, dizendo: "pronto, podemos continuar".

 

Está certo, o xaile precisava de arejar e o "frio" era uma boa razão para o exibir, até porque complementava o seu perfil de hippy.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

O preservativo - 22


Estávamos no supermercado, eu e o Henrique. Como habitual, fiz as compras que precisava e dirigi-me à caixa para pagar, pelo que me coloquei numa fila, aguardando a minha vez. De repente, eis que vejo nos expositores da caixa onde estava, entre outras coisas, preservativos. E eu que andava há tanto tempo para comprá-los! Assim como assim, estava divorciada, sozinha, e não é que tivesse muito tempo para isso, nem sequer muitas oportunidades, mas nunca se sabe e o seguro morreu de velho. 

 

Já tinha ido à farmácia várias vezes, sem sucesso, pois não sabia como pedir e ficava sempre intimidada. Faltava-me sempre o à vontade suficiente para ultrapassar o preconceito e agora não tinha que pedir a ninguém, pois estavam mesmo diante dos meus olhos, era só dar um passo, esticar o braço e discretamente, ninguém perceberia nada. Ainda olhei à minha volta a ver se o ambiente estava calmo, a ver se o Henrique estava distraído e não só. Parecia que ninguém estava a olhar para mim. Além do mais, aquilo estava exposto, portanto, era só tirar e ninguém tinha nada com isso. 

 

Olhei bem para eles, ainda um pouco distante, e percebi que não era assim tão fácil, porque havia vários tamanhos, etc... Bom, novamente o impasse. Olhei, olhei, verifiquei mais uma vez se não havia muita assistência e num acto verdadeiramente corajoso, estiquei o braço e com a mão peguei naquela coisa, que coloquei de imediato nas minhas compras. Puf!... Tão simples e tão difícil. E chegou a minha vez na caixa.

 

 O Henrique, que nunca me ajudava naquela tarefa, nesse dia resolveu dar uma ajudinha à mãe. Assim, à medida que a empregada fazia o registo, ele pegava e guardava. Eu, que ainda não estava muito segura da minha compra dos preservativos, fui atrasando, pondo tudo à frente e deixando aquilo para trás, até que chegou a hora. Apetecia-me enterrar-me pelo chão abaixo ao ver aquilo deslizar na passadeira a olhos vistos, até chegar às mãos da empregada. Uma eternidade! Já me tinha arrependido da coragem que tinha tido. Agora não havia nada a fazer, mas finalmente foi liberado e pude respirar de alívio. Foi então que aconteceu um imprevisto.

 

Chegou às mãos do Henrique e o Henrique que nunca me ajudava com as compras, nesse dia resolveu ajudar e depois de todos os meus esforços para não dar nas vistas, pega, e em vez de guardar, observa e com o seu espírito aguçado de investigador e cientista, pergunta: "mãe, o que é isto?" 

 

Eu, que estava distraída a pagar, achando que estava a salvo, respondo sem olhar: "isto o quê?" "Olha": diz ele. Enquanto a rapariga acertava o pagamento, olho e que vejo? Ele, com os preservativos na mão, ingénuo, completamente a leste do paraíso. Rápida e energicamente disse, na minha voz de comando número um: "guarda". Mas ele não obedeceu e não se calava: "oh mãe, mas eu nunca vi isto, a mãe, antes, nunca comprou isto" e eu, furiosa da vida, depois de tanta luta pela discrição, só dizia: "guarda... guarda". Eu já gritava com ele, mas ele, persistente como só ele mesmo, continuava a querer saber o que raio era aquilo e não guardava no saco de maneira nenhuma.

 

E assim, todo o supermercado ficou a saber que eu comprei preservativos.

 

Isto é que é vida! - 21


O Thiago fez um almoço de convívio para a família e pediu para levarem doces e vinhos.

 

A Tathi resolveu então passar numa doçaria e comprar um bolo de chocolate para levar para casa do irmão.

 

Quando chegou à loja saiu do carro e a Tamy foi com ela. Entraram e a Tamy pediu à mãe para lhe comprar um chocolatinho.

 

Enquanto a mãe tratava de escolher o bolo, a Tamy, nos seus quatro aninhos acabados de fazer, sentou-se muito refastelada na cadeira de uma das mesas da doçaria, enquanto se deliciava com o chocolate e gritava para a mãe, que estava no balcão: "Isto é que é vida, né mamãe!"


segunda-feira, 26 de abril de 2010

A torta de cenoura - 20


O João Bernardo estava na pré-adolescência e tinha peso a mais para a sua idade. Precisava de fazer uma dietazinha, o que era difícil, porque gostava muito de comer.

 

Um dia a empregada fez uma torta de cenoura que ele adorou e duma assentada comeu metade da torta.

 

O pai foi o primeiro a chegar a casa e quando viu aquilo ficou indignadíssimo com a quantidade absurda de bolo que ele tinha comido e porque, mais uma vez, não tinha conseguido gerir o seu apetite devorador. Como era de esperar repreendeu-o, dizendo-lhe que não devia ter feito uma coisa daquelas.

 

Ele, muito infeliz, respondeu "oh pai, a torta era de legumes (cenoura), pensei que não fazia mal!"

 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cão cadela 19


O Afonso era muito pequeno e estávamos no jardim. Apareceu uma amiga minha que tinha uma cadela e ficámos por ali a conversar, enquanto ele brincava com a cadela. Corria atrás da cadela e a cadela atrás dele e ao mesmo tempo chamava "cão, cão, anda cão"...

 

A mãe chamou-o e disse-lhe que não era um cão, era uma cadela. Ele nunca tinha ouvido aquela palavra. Para ele era tudo a mesma coisa e não ligou, continuou a chamar pelo cão. A Clara insistiu e explicou que aquele cão era uma menina e da mesma maneira que havia meninas e meninos, que isso ele já sabia, com os animais era o mesmo e como aquele cão era uma menina, dizia-se cadela. 

 

Ele escutou o que a mãe lhe disse e logo voltou a brincar com a cadela.

 

Mas então, corria e chamava "cão cadela, cão cadela!?"...

 

terça-feira, 30 de março de 2010

Tutu vítima da Tamy - 18




Estava escrito que o Tutu tinha que levar umas palmadinhas.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Desenhos animados - 17


O Henrique estava sozinho na sala, a ver desenhos animados, de que muito gostava. Já estava ali havia algum tempo, mas estava muito quieto, muito sossegado. Não se manifestava de maneira nenhuma. Várias vezes espreitei e ele estava com toda a atenção, mas calado e sem rir.

 

Então, perguntei-lhe se não estava a achar graça. Ele respondeu que sim, mas o sim não me convenceu. Insisti e disse-lhe que achava que ele não estava a gostar porque não se ria. Resposta dele: "ah, mas estou a rir por dentro!"

 

Entendi(?)



Na gravidez muda a côr - 16


Eu estava sem carro que, por qualquer razão, estava na oficina. O Luis e a Eunice moravam para os nossos lados e deram-nos boleia. A Eunice estava grávida de sete meses do segundo filho. O Henrique ia sentado no banco de trás ao pé de mim e começámos a falar da gravidez dela.

 

Ela era Cabo Verdiana por parte da mãe, portanto, não tinha a pele completamente branca. O tom de pele era de Cabo Verdiana. O Henrique, olhava para ela e para a barriga, com grande insistência. Ele deveria ter uns seis anos nessa altura e claro, já tinha visto mulheres grávidas, mas nunca tinha dado tanta atenção e talvez nunca tivesse estado tão perto. Quis tocar na barriga dela e o ar dele era de admiração. O facto é que havia qualquer coisa que o intrigava. Via-se na fisionomia dele. Mas não me passava pela cabeça o que poderia ser.

 

No dia seguinte, estávamo-nos a vestir e a preparar para começar um novo dia, quando ele me fez a seguinte pergunta: "quando a mãe estava grávida de mim, a mãe mudou de cor?"

 

Parei para pensar na pergunta, que aparentemente não fazia sentido. Além disso, estava habituada à sensatez e à coerência dele em tudo. Era uma criança precoce e tinha um entendimento muito avançado. Segundo a médica, havia um desfasamento de dois anos para mais o que, com o passar dos anos, deixaria de ser significativo e eu entendia isso perfeitamente. Todas as perguntas que ele nos fazia tinham razão de ser, tinham lógica, eram ponderadas. Mas aquilo saiu assim de um jeito que me deixou desconsertada e até meio irritada, por isso, respondi-lhe um pouco secamente, que não entendia a pergunta. Disse-lhe que ele não costumava fazer perguntas tontas, que as pessoas não mudam de cor, são sempre como são e quis que ele explicasse porque fazia semelhante pergunta. Ele, coitado, não se desmanchou. Provavelmente ele próprio achava estranho, mas naquela cabecinha havia uma questão pertinente e continuou: "é que, no anúncio, diz que muda a cor!"

 

Ouvi o que ele disse e fiquei novamente desconsertada. A coisa não se estava a compor, achava eu. No anúncio diz que muda a côr? Perguntei então: qual anúncio? Respondeu, com ar sério e humilde "da televisão...". Da televisão? Pensei - publicidade. Como eu continuava parada a olhar para ele, enquanto procurava equacionar os dados, ele continuou: "sim, no anúncio diz - se estiveres grávida muda a côr".... 

 

Mentalmente revi o anúncio do teste da gravidez, onde a menina dizia realmente: "se estiveres grávida muda a côr" - a côr da palheta do teste. Voltei atrás, à primeira pergunta dele, que relacionei com a seguinte e começou a fazer-se luz.

 

Ele associou a mudança da côr, à côr da pele, pelo facto de ela ser Cabo Verdiana e não à côr do teste, cujo pormenor ele desconhecia. Ele só sabia que mudava a côr e a Eunice realmente tinha uma côr diferente!


quinta-feira, 25 de março de 2010

Na TV - 15


Era Verão e estávamos de férias nos Açores. Como habituamente, passávamos com frequência na Delegação da RTP para ver os colegas e pôr em dia as novidades.

 

O Estúdio estava vazio e fomos para lá conversar, para não incomodar quem estava a trabalhar. Tinha acabado o Jornal da Tarde e em cima da mesa onde ficava o pivot estava uma folha de alinhamento de emissão ou qualquer coisa do tipo. O Henrique tinha nessa altura quatro anos e estava divertido a ver tudo.

 

A páginas tantas resolveu sentar-se na cadeira do pivot. O monitor ainda estava ligado à central, mas apenas em circuito interno. Viu-se no écran e achou graça. Começou a fingir que era o jornalista e gostou da brincadeira de se ver no televisor.

 

Para ver a reacção dele, o pai lembrou-se de lhe dizer que as pessoas em casa estavam a vê-lo. Ele ficou apavorado mas, se estavam a vê-lo, não podia dar o flanco. Continuou a olhar para o écran e entre dentes perguntou se era mesmo verdade que estava a aparecer em casa das pessoas. O pai, com ar sério, respondeu que sim, pedindo-lhe para ter cuidado com o que dizia e fazia. O coitado ficou aterrado, mas lá se aguentou como pôde, mas tinha que sair de cena, fosse como fosse.

 

E sem se fazer esperar, não quis saber de mais nada. Pegou na folha do alinhamento que estava em cima da mesa e devagarinho foi escondendo o rosto por trás da folha de papel, à medida que ia descendo e escorregando pela cadeira abaixo, até desaparecer por baixo da secretária. Estava a salvo.

 

Aparecer em casa de toda a gente, isso é que não!  



quarta-feira, 24 de março de 2010

Quem mora aqui? - 14


A Tamy era pequerrucha, estava a começar a falar, naquela fase em que os adultos se encantam com cada palavrinha nova que surge no vocabulário de uma criança e ficava com a babá, enquanto o Ilan e a Tathi iam trabalhar.

 

A Verónica perguntava à Tamy: "quem mora aqui?" A Tamy respondia: "o papai". A Verónica continuava: "e mais?" Ela respondia: "a mamãe". E a Verónica: "e mais", a Tamy: "o Tutu"A outra continuava pedindo mais e a Tamy respondia: "a Hanna (cadela)" e mais: "você" e mais: "eu". A Verónica estava feliz com as respostas da Tamy.

 

Algum tempo depois, a Verónica encantada com a aprendizagem da Tamy, voltava à carga: "Tamy, quem mora aqui?" A Tamy, coitadinha, feita um papagaio, respondia. A outra continuava e a Tamy, pacificamente, ia respondendo por aí adiante, até a família estar de novo completa. E este longo questionário foi repetido várias vezes ao longo de um dia.

 

Já estava de saída, quando resolveu certificar-se de que a lição estava mesmo sabida e já na frente da Tathi, que tinha acabado de chegar, diz: "Tamy, fala para a mamãe, fala querida, quem mora aqui?" A Tamy já farta daquilo, quando a outra faz a repetidíssima pergunta do quem mora aqui, resolveu pôr um basta naquela história, que era como que se lhe estivessem a chamar estúpida e responde com toda a firmeza e segura de si: "é todo o mundo"...



quarta-feira, 17 de março de 2010

A Marta - 13


A São e o Aníbal estavam de férias em Lisboa e como de costume vieram ter connosco para irmos jantar. A São passou a tarde na televisão (RTP) com a Marta, que ainda não tinha dois anos. Tendo terminado o meu horário fui buscar o Henrique à ama.

 

A Marta era uma menina prodígio. Esperta, viva, alegre, cantarolava tudo o que ouvia, era muito divertida.

 

Estávamos sentadas nos sofás da área de lazer do Centro de Emissão, onde as crianças podiam estar mais à vontade. Às tantas, a Marta, que estava sentada no chão, resolveu fazer chichi ali mesmo, num sítio onde toda a gente passava. Não contente com isso, desatou a chapinhar com as mãos e os pés. Chamei a São, mas ela estava muito bem a conversar e não esteve para se incomodar. Só ria. Fiquei pasmada com a passividade dela e pensei, quem me dera ser assim. O Henrique que tinha então quatro para cinco anos, ria da javardice que a outra fazia. Finalmente, a São levantou-se e levou a Marta à casa de banho, que era mesmo em frente ao lugar onde estávamos. Voltou com a Marta já lavada e enxuta. Assim que saíram, entrou o Henrique.  A Marta viu o Henrique entrar e foi atrás dele. Pensei: "o que é que aqueles dois vão fazer para a casa de banho?!"...

 

Passaram alguns minutos, o tempo suficiente para saírem e nada. Disse à São que os dois estavam enfiados na casa de banho, mas ela riu e não se importou, achando que não havia problema.

 

Continuámos a nossa animada conversa e os dois nada de saírem. Eu não conseguia deixar de pensar no que é que os dois estariam a tramar lá dentro. Imaginava-os a chafurdar na água e a molharem-se um ao outro. Estava super curiosa para ver o que é que ia sair dali. Mas eles nada de saírem, nem barulho, nem vozes. Silêncio completo.

 

Decididamente, algo de interessante se passava e eu precisava intervir. Entrei. Na primeira casa de banho, nada. Na segunda, os dois lá enfiados. O Henrique de pé, com as calças para baixo, a fazer chichi, com uma pontaria espectacular para dentro da sanita, fazendo um arco enorme. A Marta do lado direito da sanita, com o dedinho indicador a meio do arco, interrompendo o chichi, que por sua vez fazia um repuxo, espalhando-se por todo o lado. Ambos ignoraram completamente a minha presença, compenetrados e deliciados com a brincadeira.

 

Eu disse: "Henrique, não vez que ela é mais pequena que tu, não a deixes pôr o dedo no teu chichi". Resposta dele, tranquilo, com ar de gozo e dono e senhor da situação: "ela põe porque quer".