terça-feira, 30 de março de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
Desenhos animados - 17
O Henrique estava sozinho na sala, a ver desenhos animados,
de que muito gostava. Já estava ali havia algum tempo, mas estava muito quieto,
muito sossegado. Não se manifestava de maneira nenhuma. Várias vezes espreitei
e ele estava com toda a atenção, mas calado e sem rir.
Então, perguntei-lhe se não estava a achar graça. Ele respondeu
que sim, mas o sim não me convenceu. Insisti e disse-lhe que achava que
ele não estava a gostar porque não se ria. Resposta dele: "ah, mas estou a rir por dentro!"
Entendi(?)
Na gravidez muda a côr - 16
Eu
estava sem carro que, por qualquer razão, estava na oficina. O Luis e a
Eunice moravam para os nossos lados e deram-nos boleia. A
Eunice estava grávida de sete meses do segundo filho. O
Henrique ia sentado no banco de trás ao pé de mim e começámos a falar
da gravidez dela.
Ela
era Cabo Verdiana por parte da mãe, portanto, não tinha a pele
completamente branca. O tom de pele era de Cabo Verdiana. O Henrique,
olhava para ela e para a barriga, com grande insistência. Ele deveria ter uns
seis anos nessa altura e claro, já tinha visto mulheres grávidas, mas nunca
tinha dado tanta atenção e talvez nunca tivesse estado tão perto. Quis
tocar na barriga dela e o ar dele era de admiração. O facto é que havia
qualquer coisa que o intrigava. Via-se na fisionomia dele. Mas não me passava
pela cabeça o que poderia ser.
No
dia seguinte, estávamo-nos a vestir e a preparar para começar um novo dia,
quando ele me fez a seguinte pergunta: "quando a mãe estava grávida
de mim, a mãe mudou de cor?"
Parei
para pensar na pergunta, que aparentemente não fazia sentido. Além
disso, estava habituada à sensatez e à coerência dele em tudo. Era uma criança
precoce e tinha um entendimento muito avançado. Segundo a médica, havia um
desfasamento de dois anos para mais o que, com o passar dos anos, deixaria
de ser significativo e eu entendia isso perfeitamente. Todas as perguntas
que ele nos fazia tinham razão de ser, tinham lógica, eram ponderadas. Mas
aquilo saiu assim de um jeito que me deixou desconsertada e até meio irritada,
por isso, respondi-lhe um pouco secamente, que não entendia a pergunta.
Disse-lhe que ele não costumava fazer perguntas tontas, que as pessoas não
mudam de cor, são sempre como são e quis que ele explicasse porque fazia
semelhante pergunta. Ele, coitado, não se desmanchou. Provavelmente ele próprio
achava estranho, mas naquela cabecinha havia uma questão pertinente e
continuou: "é que, no anúncio, diz que muda a cor!"
Ouvi
o que ele disse e fiquei novamente desconsertada. A coisa não se estava a
compor, achava eu. No anúncio diz que muda a côr? Perguntei então: qual
anúncio? Respondeu, com ar sério e humilde "da televisão...". Da televisão? Pensei
- publicidade. Como eu continuava parada a olhar para ele, enquanto
procurava equacionar os dados, ele continuou: "sim,
no anúncio diz - se estiveres grávida muda a côr"....
Mentalmente
revi o anúncio do teste da gravidez, onde a menina dizia realmente:
"se estiveres grávida muda a côr" - a côr da palheta do teste. Voltei
atrás, à primeira pergunta dele, que relacionei com a seguinte e começou a
fazer-se luz.
Ele associou a mudança da côr, à côr da pele, pelo facto de ela ser Cabo Verdiana e não à côr do teste, cujo pormenor ele desconhecia. Ele só sabia que mudava a côr e a Eunice realmente tinha uma côr diferente!
quinta-feira, 25 de março de 2010
Na TV - 15
Era
Verão e estávamos de férias nos Açores. Como habituamente, passávamos com
frequência na Delegação da RTP para ver os colegas e pôr em dia as novidades.
O
Estúdio estava vazio e fomos para lá conversar, para não incomodar quem estava
a trabalhar. Tinha acabado o Jornal da Tarde e em cima da mesa onde ficava o
pivot estava uma folha de alinhamento de emissão ou qualquer coisa do
tipo. O Henrique tinha nessa altura quatro anos e estava divertido a ver tudo.
A
páginas tantas resolveu sentar-se na cadeira do pivot. O monitor ainda estava
ligado à central, mas apenas em circuito interno. Viu-se no écran e achou
graça. Começou a fingir que era o jornalista e gostou da brincadeira de se ver
no televisor.
Para ver a reacção dele, o pai lembrou-se de lhe dizer que as
pessoas em casa estavam a vê-lo. Ele ficou apavorado mas, se estavam a vê-lo,
não podia dar o flanco. Continuou a olhar para o écran e entre dentes perguntou
se era mesmo verdade que estava a aparecer em casa das pessoas. O pai, com ar
sério, respondeu que sim, pedindo-lhe para ter cuidado com o que dizia e fazia.
O coitado ficou aterrado, mas lá se aguentou como pôde, mas tinha que sair
de cena, fosse como fosse.
E sem se fazer esperar, não quis saber de mais nada. Pegou na
folha do alinhamento que estava em cima da mesa e devagarinho foi escondendo o
rosto por trás da folha de papel, à medida que ia descendo e escorregando pela
cadeira abaixo, até desaparecer por baixo da secretária. Estava a salvo.
Aparecer em casa de toda a gente, isso é que não!
quarta-feira, 24 de março de 2010
Quem mora aqui? - 14
A
Tamy era pequerrucha, estava a começar a falar, naquela fase em que os adultos
se encantam com cada palavrinha nova que surge no vocabulário de uma
criança e ficava com a babá, enquanto o Ilan e a Tathi iam trabalhar.
A
Verónica perguntava à Tamy: "quem mora aqui?" A Tamy
respondia: "o papai". A Verónica continuava: "e
mais?" Ela respondia: "a mamãe". E a Verónica: "e mais",
a Tamy: "o Tutu". A outra continuava pedindo mais e a Tamy
respondia: "a Hanna (cadela)" e mais: "você" e mais:
"eu". A Verónica estava feliz com as respostas da Tamy.
Algum
tempo depois, a Verónica encantada com a aprendizagem da Tamy, voltava à carga:
"Tamy, quem mora aqui?" A Tamy, coitadinha, feita um
papagaio, respondia. A outra continuava e a Tamy, pacificamente,
ia respondendo por aí adiante, até a família estar de novo
completa. E este longo questionário foi repetido várias vezes ao longo de
um dia.
Já estava de saída, quando resolveu certificar-se de que a lição
estava mesmo sabida e já na frente da Tathi, que tinha acabado de
chegar, diz: "Tamy, fala para a mamãe, fala querida, quem mora
aqui?" A Tamy já farta daquilo, quando a outra faz a repetidíssima
pergunta do quem mora aqui, resolveu pôr um basta naquela história, que era como
que se lhe estivessem a chamar estúpida e responde com toda a firmeza e segura
de si: "é todo o mundo"...
quarta-feira, 17 de março de 2010
A Marta - 13
A São
e o Aníbal estavam de férias em Lisboa e como de costume vieram ter connosco
para irmos jantar. A São passou a tarde na televisão (RTP) com a Marta, que
ainda não tinha dois anos. Tendo terminado o meu horário fui buscar o
Henrique à ama.
A Marta
era uma menina prodígio. Esperta, viva, alegre, cantarolava tudo o que ouvia,
era muito divertida.
Estávamos
sentadas nos sofás da área de lazer do Centro de Emissão, onde as crianças
podiam estar mais à vontade. Às tantas, a Marta, que estava sentada no chão,
resolveu fazer chichi ali mesmo, num sítio onde toda a gente passava. Não
contente com isso, desatou a chapinhar com as mãos e os pés. Chamei a São,
mas ela estava muito bem a conversar e não esteve para se incomodar. Só
ria. Fiquei pasmada com a passividade dela e pensei, quem me dera ser assim. O Henrique que tinha então quatro para cinco
anos, ria da javardice que a outra fazia. Finalmente,
a São levantou-se e levou a Marta à casa de banho, que era mesmo
em frente ao lugar onde estávamos. Voltou com a Marta já lavada e enxuta.
Assim que saíram, entrou o Henrique. A Marta viu o Henrique entrar e
foi atrás dele. Pensei: "o que é que aqueles dois vão fazer para a casa de
banho?!"...
Passaram
alguns minutos, o tempo suficiente para saírem e nada. Disse à São que os dois
estavam enfiados na casa de banho, mas ela riu e não se importou,
achando que não havia problema.
Continuámos
a nossa animada conversa e os dois nada de saírem. Eu não
conseguia deixar de pensar no que é que os dois estariam a tramar lá
dentro. Imaginava-os a chafurdar na água e a molharem-se um ao
outro. Estava super curiosa para ver o que é que ia sair dali. Mas eles
nada de saírem, nem barulho, nem vozes. Silêncio completo.
Decididamente, algo de interessante se passava e eu precisava
intervir. Entrei. Na primeira casa de banho, nada. Na segunda, os dois lá
enfiados. O Henrique de pé, com as calças para baixo, a fazer chichi, com
uma pontaria espectacular para dentro da sanita, fazendo um arco enorme. A
Marta do lado direito da sanita, com o dedinho indicador a meio
do arco, interrompendo o chichi, que por sua vez fazia um repuxo,
espalhando-se por todo o lado. Ambos ignoraram completamente a minha
presença, compenetrados e deliciados com a brincadeira.
Eu disse: "Henrique, não vez que ela é mais pequena que tu,
não a deixes pôr o dedo no teu chichi". Resposta dele,
tranquilo, com ar de gozo e dono e senhor da situação: "ela
põe porque quer".
terça-feira, 16 de março de 2010
Dédé e Kamilla - 12
Paulinho tinha nove anos e Daniel sete, mais ou menos, quando
a irmãzinha apareceu. Com dois rapazes, uma menina foi uma alegria e tanto,
mimada por toda a família e pelos dois que, sem dúvida alguma,
gostavam muito dela. Era um brinquedo, mas às vezes tinham que se confrontar
com situações de atenção mais direccionada para ela e menos para eles e
nestes casos, normalmente, o mais pequeno ressente-se.
Um
dia, Dédé (Daniel), achando que ninguém estava a vê-lo, tratou
de resolver as coisas ao seu jeito.
Pé ante pé, esgueirou-se para a porta do quarto da irmã, com
poucas semanas de vida dormindo o sono dos justos e não vendo ninguém,
entrou, foi junto do bercinho e deixou muito bem claro o seu recado:
"Kamilla, você tá me ouvindo? Eu gosto muito de
você. Adoro você. Mais você é adoptada, hem?!"
sexta-feira, 12 de março de 2010
A Sara - 11
A
Sara é a minha sobrinha caçula, que tem agora catorze aninhos e é bailarina.
Toda ela é leveza e expressa arte dos pés à cabeça. Super criativa, tem
uma personalidade meio etérea, contudo, sabe muito bem o que quer. É discreta,
mas não sóbria, como um raio de luz, que irradia uma
angélica claridade por toda a parte onde está.
Quando
ela era pequenina, ainda tinha fraldas e teria à volta de dois, três anos,
aconteceu uma coisa interessante. Ela estava na sala a brincar sozinha. A
Fátima estava na cozinha a preparar o jantar, que sempre deixava pronto antes
de chegar a hora de se ir embora. A Sara ainda falava muito pouco e não gostava
de falar, como ainda hoje, expressando-se apenas com o olhar e o rosto. Só
fala se tiver alguma coisa para contar, tirando isso, não fala. O que sempre me
fascinou é que ela o faz de um jeito gracioso, com imensa sensibilidade. Nunca
ninguém ficou com dúvidas, independentemente da falta de palavras dela. Está
tudo devidamente esclarecido e perfeitamente impresso no seu
semblante.
E
perdida que estava nas suas brincadeiras, como era suposto, a certa altura
levanta-se e vai ter com a Fátima. Fica de volta dela e não a deixa,
puxando-lhe a roupa, o avental, e chama a atenção dela. A Fátima pergunta-lhe o
que é que ela quer e ela mostra um descontentamento, um incómodo e
continua a reclamar a atenção dela. Ela acha aquilo aborrecido e pergunta o que
é que a Sara quer, o que foi, explicando-lhe que não pode ir
porque está ocupada. Ela volta para a sala, mas minutos depois a cena
repete-se e a Fátima não sabe o que lhe há-de fazer, mas ela não
a deixa e continua a chamá-la, insistentemente.
A
Fátima não tem tempo, mas com tanta insistência acaba por ceder. Vai com
ela até onde ela quer e pergunta-lhe mais uma vez o que é que se passa. Ela diz
que está barulho em baixo. A Fátima diz que não está barulho, que não faz mal e
pede-lhe para continuar a brincar porque precisa de ir trabalhar. Ela chora e
diz que tem medo. A Fátima não percebe o que se está a passar e a Sara insiste
e explica-se como pode. Estamos a falar de uma criança quase bebé, mas ela
consegue explicar que ouve barulho na casa de baixo e que são ladrões.
A
outra diz que não, que não há ladrões, para ela ficar tranquila. Senta-a no
colo, mas a Sara chora e está muito assustada. A Fátima fica um bocado com ela
ao colo para a acalmar e as duas ficam caladas por um instante. É aí que a
Fátima começa a ouvir o que a Sara já estava a ouvir há um tempo e que a estava
assustando. A criança falou dos ladrões e a Fátima começou então a entender,
porque começou a ouvir os mesmos ruídos e pensou que, de facto, era estranho,
porque àquela hora não era costume estar ninguém em casa. Além disso, eram
vozes de homens e parecia que abriam gavetas, portas, por aí.
Agora
era ela que estava assustada. Não havia muita gente no prédio e ela ficou muito
preocupada e sem saber o que fazer. Mas tinha que fazer alguma coisa, não
fossem eles subir um andar e ela estava sozinha com a criança, o que era
uma enorme responsabilidade. O que parecia uma tolice de criança de fraldas
tornou-se repentinamente num pesadelo. Então ela ligou para a polícia e
explicou que estava em casa dos patrões com uma criança pequena e exposta a uma
cena de vandalismo. A Polícia seguiu imediatamente para lá e apanhou os dois
homens em flagrante.
Durante
uns dias o pai proibiu quem quer que fosse de falar naquele assunto, porque
sentia a Sara fragilizada, no que fez muito bem. Porém, a Sara, nos dias que se
seguiram, ganhava bonecas novas dos vizinhos de baixo, que assim exprimiam a
sua gratidão por a Sara, quase bebé, os ter salvo de um enorme furto de joias.
Guardo
esta história com muito carinho, mas sobretudo com enorme espanto, porque
acho extraordinário o comportamento da Sara. Não acho normal nem vulgar, uma
criança tão pequena ter semelhante atitude. Sempre achei que ela é dotada de
uma forte percepção extra sensorial, caso contrário não se teria apercebido de
nada. Tinha ficado no mundo dela, inocente e pueril.
A Sara é uma flor matizada de muitos tons e variadíssimas
fragrâncias raras e delicadas que eu gostaria que nunca se perdessem.
terça-feira, 2 de março de 2010
Vamu dormi - 10
S. Paulo, Brasil, 19.10.09
A Tamy e o Tutu preparam-se
para dormir (clicar sobre o texto sublinhado)
E assim a Tamy ensina o Tutu a dormir.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Os cremes da mãe - 9
Todas as manhãs e todas as noites eu tinha e tenho o hábito de
cuidar devidamente da minha pele. Desde pequeno, o Henrique habituou-se a ver
este ritual.
Um dia perguntou: "o que é isso que a mãe põe na cara
todos os dias"? Respondi que era creme. Ele
perguntou: "creme para quê?". Tranquilamente, respondi-lhe que
era para não ficar velha. Ele, sem se fazer esperar, disse logo: "ah,
então o pai também tem que pôr!" E ficou a olhar para mim, à
espera... ficámos a olhar um para o outro e eu tive que lhe dizer: "pois
é, mas sabes, os homens não têm muita paciência para estas coisas!"
Mas... ele não queria o pai velho, só isso.
O Presidente da República - 8
Era o
início do ano do calendário solar. Começavam as confusões por causa dos
aumentos salariais. Os jornais e os telejornais abriam sempre com
especulações de aumentos, greves, sindicatos e patronato, tudo em pé
de guerra.
Estávamos
a jantar e ao mesmo tempo a tv estava ligada, para irmos ouvindo as notícias. O
jornalista ia relatando os números e percentagens que correspondiam às
diversas categorias profissionais para os públicos, privados, etc. Às tantas, o
jornalista começou a falar dos aumentos para os representantes do Governo,
deputados, primeiro-ministro, até que chegou ao Presidente da República e
dizia, o aumento para este ano para o Presidente da República é de X.
O
Henrique vira-se para mim e pergunta espantadíssimo "oh mãe, o
Presidente da República também trabalha?!"
(A pergunta não era também "ganha" era também
"trabalha").
A anedota - 7
O
Henrique ouvia-nos muitas vezes contar anedotas. Quando nos reuníamos com os
amigos era uma maneira de extravasar, convivendo com uma certa dose de boa
disposição. Nesses convívios as crianças ficavam por ali, na vida deles,
entretidos uns com os outros.
Um
dia, sem mais nem menos, ele disse-me: "mãe... a mãe pode-me contar
uma anedota?" E eu pensei, uma anedota? Na noite anterior tínhamos
estado a contar anedotas. Era isso, queria que lhe contasse uma, só
que todas as anedotas eram muito complicadas para ele entender. Mas
ele queria que lhe contasse uma anedota. Comecei a pensar
no que é que lhe ia contar para ele perceber. Não me lembrava de
nada e disse-lhe que era tudo muito complicado e ele não ia entender. Mas ele
respondeu muito convicto: "não, a mãe conta, conta que eu
percebo". Estou tramada,
pensei, enquanto me veio à ideia uma mais leve, que ainda assim
era complexa para ele, mas com a insistência não tive alternativa e comecei a
contar devagar, para o caso de ele não entender alguma coisa e
querer perguntar, como sempre fazia contudo.
Ia
assim, contando devagarinho e duas vezes parei e perguntei se ele estava a
entender, porque o semblante era sério, não transparecia nada. Mas ele
dizia que sim, para eu continuar. Às tantas tive que interromper por causa de
qualquer coisa que estava a fazer e ele perguntou: "já
acabou?" Respondi que não e ele ficou à espera. Continuei contando
o resto e parei. Ele esperou uns escassos segundos e vendo que eu tinha acabado
de falar perguntou: "a mãe já acabou?" Respondi que sim.
Então
ele olhou para mim e começou a rir, mas um riso de dever, ou seja, tinha
acabado a anedota e ele sabia que estava na altura de rir. Olhava para mim e
ria ah, ah, ah, mas um rir tão esforçado! Missão cumprida com aquele riso.
Estava a agir como os adultos. Era isso que importava.
Quem riu depois com gosto fui eu, mas não ao pé dele. E
pronto, foi assim a primeira anedota do Henrique.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
A vida são dois dias - 6
Quando
alguma coisa me chateava, eu tinha o costume de dizer "a vida são dois
dias e o Carnaval são três". Meu filho Henrique, com cinco anos de idade, ouvia isto com frequência,
quando eu desabafava em voz alta, comigo mesma.
Ele
sempre foi muito matemático, muito preciso. Não gostava de dúvidas. O preto no
branco e o branco no preto e quando tinha dúvidas perguntava.
Um dia, uma vez mais, saiu-me esta expressão "a vida são dois dias... ". Com o seu ar inocente, mas de expoente máximo, achando que tinha que haver uma boa explicação para que a sua matemática fizesse sentido, intrigadíssimo, perguntou:
- "Oh mãe, é isso que eu não percebo?" - O quê(?), perguntei
eu. Resposta dele: -"Se a vida são dois dias, como é que o Carnaval
são três?!..."
sábado, 20 de fevereiro de 2010
O cartão multibanco - 5
Quando
o Henrique era criança, as despesas eram muitas e eu tinha que gerir muito
bem as minhas finanças. Quando se aproximava o fim do mês, guardava coisas
extras para comprar no mês seguinte, óbvio. Mas às vezes queria muito isto ou
aquilo, qualquer coisa... e saíam em voz alta aqueles desabafos que nos escapam
naturalmente, que chatice, já não tenho dinheiro, tenho que esperar... etc.
Um
dia eu estava com esse problema por um motivo que nem me lembro já, comentando
em voz alta. O Henrique que era pequeno e que eu pensava que nunca ouvia
e que nunca entendia, deve ter ficado incomodado e diz-me assim: "oh
mãe, mãe! A mãe tem aí aquele cartão?" Qual cartão(?),
perguntei. "Aquele que a mãe tem para ir àquelas máquinas buscar
dinheiro?"...
Entendi. Ele não percebia porque é que eu me lamentava, se havia
caixas multibanco e eu até tinha um cartão que me resolvia o problema sempre
que o dinheiro na carteira acabava?!
Simples.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Vamos à praia - 4
Era
um Domingo de Inverno e chovia copiosamente. A Clara queria levar o Afonso para
qualquer sítio para apanhar ar e brincar, mas o tempo estava francamente mau. A
cada dez minutos lamentáva-se, dizendo: "que chatice, o tempo está mau, não
posso sair com ele". Além disso, o pai queria trabalhar e dava-lhe
jeito ficar sozinho em casa. E o Afonso estava por ali entretido no chão da sala.
Pouco
a pouco a Clara ia à janela e resmungava. Estava mesmo chateada, porque a
chuva não parava e ela só pensava em levar o Afonso ao jardim. Às
tantas, ele levanta-se do chão, salta para cima do sofá e em pé com os bracitos
no ar, grita: "Já sei, mãe, vamos à praia!"
Mas disse aquilo com um ar vitorioso, de quem tinha tido uma ideia genial. De facto, era, mas era uma ideia genial e inocente, incompatível com a realidade. Começámos a rir, a rir com gosto, porque para ele a praia era um lugar que estava lá naquele sítio e que tinha sempre sol, era certo. Para ele não havia dúvidas disso. E nós ríamos enquanto ele repetia: "sim, à praia, na praia tá sol!?" Como quem diz "não percebem, são estúpidas!"
O Miguel - 3
A
minha irmã e eu não somos muito parecidas, contudo, existem semelhanças que para uns são muito evidentes e para outros não.
O
Miguel nasceu e assim que começou a ser "gente" e a emitir sons,
começaram a ensinar-lhe os nomes da família. Ele aprendia e reconhecia
todos com muita facilidade, mas os nossos nomes, trocava sempre. Quando me
via, dizia que era a Guida e quando via a Guida dizia que era a Lili. Por mais
que o emendassem, trocava sempre. Era quase um desafio, porque estávamos
sempre à espera que acertasse, mas isso não acontecia, nem ninguém nunca
pensou no porquê daquela troca que afinal tinha a sua razão de
ser.
No dia
do octogésimo aniversário do avô, que reuniu a família toda, ele viu as
duas juntas pela primeira vez. Perguntaram-lhe os nossos nomes e ele olhava
para uma e olhava para outra, primeiro com um ar intrigado, depois a expressão
descontraiu e começou a rir e ria, ria, ria muito...
É que ele finalmente percebeu que haviam duas e entendeu
a sua confusão. De facto, ele nunca nos tinha visto juntas, porque vivemos
longe uma da outra e só nos reunimos todos em ocasiões especiais. Nesse
dia ele percebeu a confusão e nós também, claro. A expressão do seu riso
traduzia exactamente o engano e ria como que a gozar com ele mesmo, como se nos
dissesse "afinal eram duas, queriam-me enganar!"
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Mãiê, você engoliu eu? - 2
O
Thiago e a Tathiana eram muito pequenos. Estavam os dois a brincar, mas
pouco a pouco brigavam um com o outro. Os dois sempre tiveram muita
energia, só que naquele dia deu para o torto. A mãe dizia para sossegarem, mas
eles não paravam de fazer traquinices. Ela dizia que era ele, ele dizia
que era ela. É assim mesmo, toda a criança tem destes momentos.
De
repente, encontrou uma foto onde estavam todos menos ele, porque a minha irmã
estava grávida dele. Olhou com muita atenção e perguntou, com algum
espanto: "Mãiê, porque eu não estou nesta foto? A Tathi
está, onde eu estava que não estou me vendo, hem?"
A Mãe
simplesmente respondeu que ele ainda não tinha nascido, estava na barriga
dela. Na sua inocência, ele perguntou "na sua barriga? E
como eu fui aí parar? ... Você engoliu eu?"
Com
a mãe atrás dele e sem saber muito bem o que responder, ele continua:
" Ah, não! Não mi diga que vai me engolir outra vez?!...
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Mãe, eu queria nascer - 1
Um
dia estávamos em casa com uns amigos. Os homens estavam no escritório às voltas
com a informática e as mulheres na sala com as crianças.
O
Henrique era o mais pequeno e teria pouco mais de dois anos. A conversa
baseava-se nos filhos, nascimentos e abortos. Ninguém diria que as crianças
estavam a ouvir, de tão entretidas nas suas brincadeiras. Pelo menos assim
parecia. Falou-se destes assuntos uma tarde inteira, sobretudo no problema do
aborto. Mulheres que faziam abortos com frequência, consequências físicas e
emocionais e cada uma se exprimia como que o sentindo na própria pele.
Assim falávamos, completamente alheias às crianças, achando que eles nem
entendiam a conversa.
Ao
fim da tarde, o pessoal bateu em retirada e o Henrique continuou sozinho com as
suas construções de legos. O pai foi para o escritório dar
continuidade aos seus trabalhos e eu fiquei na sala. De repente, o Henrique
levanta-se e dirige-se a mim. Põe uma mão sobre o meu joelho, fixa-me nos olhos
e com a outra mão, tocava-ma, como que a chamar a minha
atenção para eu ouvir o que ele tinha para me dizer e depois de estar
convicto de que eu lhe estava a dar toda a atenção que ele reclamava,
disse: "Mãe, eu queria nascer!"
Caí
na realidade. O meu filho lindo e amado tinha estado a absorver tudo aquilo e
antes que eu ficasse com alguma dúvida de o ter posto neste mundo, já que se
tinha apercebido de que nem todas as mães pareciam estar certas de quererem ou
não os seus próprios filhos, ele reafirmava a soberana decisão da sua
intervenção no processo de reencarnação, de vir a este mundo através da minha
pessoa, escolhida para sua mãe nesta vida.
Achei
aquilo uma delícia. De certa forma era uma declaração de amor. Amor para com
ele, para com os seus progenitores, para com "Deus" ou a vida. Agora não restavam dúvidas
que nunca existiram, claro. Além disso, adivinhava-se também uma personalidade
prematura muito forte. A sua certeza de estar aqui, pressupunha uma missão a
cumprir. "Mãe, eu queria nascer"... (eu tenho motivos muito fortes
para estar aqui!).
Por
momentos fiquei sem palavras. Mas foi lindo.
Pergunto-me, quantas crianças não dirão ou pensarão da mesma
forma. Algumas denotam uma vontade tão forte da sua presença neste mundo, quer
pelas suas atitudes enérgicas, que muitas vezes os adultos não entendem, quer
pela resistência à sobrevivência, que se revelam verdadeiros milagres, quantas
não terão o mesmo pensamento - eu quero estar aqui, custe o que custar. Eu
preciso de estar aqui!
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Baby lonia
Babilónia, As Portas de Deus.
As crianças são as Portas que Deus nos está constantemente a
abrir, mas que depois são atiradas para o mundo, um mundo que nem sempre está à
altura de as receber e as contamina e transforma.
As crianças são o melhor da vida. Elas constroem o futuro, elas
têm o poder de mudar o mundo. Mas a responsabilidade é nossa e temos de
dar-lhes as ferramentas necessárias. Temos que reviver o mundo delas que já foi
o nosso, um dia.
Este blog é inteiramente dedicado às crianças. Especialmente
dedicado ao meu filho, mas não só, a todas as crianças no mundo inteiro, sem
excepção.
Para elas, que a Babilónia de hoje se transforme nas verdadeiras
Portas de Deus e lhes abra a passagem para o mundo, um mundo novo, melhor e
mais justo.